Desafio em dose dupla, de Malle e Queneau

Zazie no Metrô confronta menina com linguagem obscena

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

Raymond Queneau morreu em 1976, 16 anos depois que Louis Malle adaptou seu livro mais famoso, Zazie Dans le Métro, e justamente no momento em que a França ainda não conseguira deglutir uma provocação do cineasta (Lacombe Lucien) e ele já embarcava em outra (Pretty Baby - Menina Bonita). Queneau foi o grande (re)inventor da língua e da literatura francesas, Malle foi por excelência o cineasta do escândalo. Nasceram um para o outro. É bom lembrar isso agora que Zazie no Metrô está saindo em DVD no País. O filme nunca foi lançado comercialmente no Brasil. Tornou-se conhecido através de programações especiais dedicadas ao grande diretor.Queneau sempre se admirou de que existissem duas línguas francesas - ele talvez se admirasse de descobrir que, no Brasil, país continental, dada a multiplicidade de culturas regionais, existem várias línguas faladas e várias escritas. Queneau acreditava na permanente reinvenção da linguagem. A língua é uma coisa viva, em permanente transformação, ele achava. Não sendo um incoerente, escreveu, em 1947, um texto que mais parecia um exercício. Chamava-se justamente Exercícios de Estilo e consistia em contar 99 vezes a mesma anedota, mas de tal maneira que oito detalhes diferentes fazem de cada um dos relatos algo novo e original.A França já estava acostumada às provocações de Queneau, mas aí veio Zazie. Uma menina do interior sonha andar de metrô em Paris. Ela foge para realizar seu sonho. Descobre não apenas o trem urbano subterrâneo, mas o mundo dos travestis e sua linguagem obscena. Queneau era um projeto perfeito para Malle, em 1960. Considerado um dos precursores da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês na segunda metade dos anos 50 - com Alexandre Astruc, Roger Vadim e Alain Resnais, etc. -, o herdeiro de uma família de grandes industriais chegara ao cinema por meio do curta, antes de realizar, em parceria com Jacques Yves Cousteau, O Mundo do Silêncio, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 1956. O primeiro longa-solo do diretor, Ascensor para o Cadafalso, mostra Jeanne Moreau e Maurice Ronet como amantes que planejam matar o marido dela e a trilha improvisada de Miles Davis fez dupla história (no jazz e no cinema). Veio depois Os Amantes, em 1958, o ano emblemático do surgimento da nouvelle vague (embora a consagração internacional tenha começado em Cannes, em 1959, há meio século).A felação em Os Amantes provocou escândalo, e Malle foi ameaçado de excomunhão pela Igreja Católica. Novos escândalos se seguiram - ele reabilitou o direitista Drieu de la Rochelle e discutiu o suicídio em Trinta Anos Esta Noite, encarou o incesto em O Sopro no Coração, o colaboracionismo em Lacombe Lucien, a prostituição infantil em Pretty Baby. Ninguém filmou crianças como Malle. Brooke Shield no bordel de New Orleans em Menina Bonita; o internato de Adeus, Meninos, invadido pelos conflitos da 2ª Guerra; Zazie no Metrô. Malle foi contestado como autor na nouvelle vague. Sua versatilidade, a escolha de temas e ambientes diversos, tudo desconcertava. O problema não era de Malle. O diretor, morto em 1995, foi um grande artista. ServiçoZazie no Metrô (Zazie dans le Metro). Fr, 1960. DVD da Cult Filmes. R$ 29,90

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