Desafinação de Marília Pêra só termina quando canta Ave Maria

Famosa canção de Gounod encerra o espetáculo: 'É a forma que ela gostaria de ter cantado', diz atriz

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

Marília Pêra diverte-se ao lembrar que enfrentou mais dificuldade para aprender corretamente as notas musicais que para desafinar, em Gloriosa. "Somente depois de saber exatamente como devia cantar é que comecei a trabalhar o erro", conta a atriz que, em cena, é obrigada a ?destruir? obras como A Rainha da Noite, de Mozart; A Risada de Adele, de Strauss; e A Canção do Sino, de Lackme.A disciplina, no entanto, ainda precisa ser controlada. "Sem perceber, acabo cantando corretamente. Por isso, Charles Möeller e Claudio Botelho são obrigados a acompanhar o espetáculo de vez em quando para me repreender." A função é inusitada para todos - acostumados a procurar a excelência em todos os seus musicais, os diretores trilharam o mesmo caminho, mas o importante aqui é cantar mal. "Nunca fiz isso antes. Marília chegava pronta aos ensaios, com tudo muito bem estudado. Porém, tínhamos de lembrá-la que não podia ser afinada, porque é muito sedutor cantar bem", diz Botelho.Marília divide a cena com Eduardo Galvão, que interpreta o pianista Cosmé McMoon, e com Guida Vianna, que vive três papéis - Maria, a empregada; Dorothy, a amiga; e Verinda, a mulher que humilha Florence durante um recital. São personagens que contrastam com o estado de aparente loucura constantemente vivido por Florence, que não percebia o tom de galhofa embutido nos gritos de "bravo!", vindos da plateia em suas apresentações no Ritz.Segundo Möeller, essa fuga seria resultado do tratamento contra a sífilis, doença infecciosa que contraiu do primeiro marido. "O uso constante do mercúrio a deixava transtornada", comenta ele, que gostou do cenário criado por Rogério Falcão, formado por uma estrutura metálica inspirada no estilo art déco. Com isso, é possível ambientar a história em quatro lugares: o Hotel Seymour, onde ela morava; a gravadora; o Hotel Ritz; e o Carnegie Hall, onde fez sua derradeira apresentação.A cenografia reproduz outra preferência de Florence, que adorava quadros: uma parede de sua casa vivia repleta de foto das festas das quais participava e das pessoas que gostava. "Só não enchemos o cenário de cadeiras, mais uma paixão dela, para não atrapalhar a movimentação dos atores", brinca Möeller.Também o figurino, assinado por Kalma Murtinho, é fiel ao estilo pouco convencional de Florence, que era uma mulher quase kitsch, cheia de imaginação e milionária. Para se ter ideia da extensão de seu gosto, Florence apresentou-se no Carnegie Hall, em Nova York, vestida como um anjo. "Como a Florence era uma mulher gordinha, Kalma buscou a essência de seu vestuário."Foi assim, trajando asas, que a soprano americana percebeu o fracasso que era na opinião alheia. As pesadas críticas publicadas depois de sua apresentação no Carnegie Hall, em outubro de 1944, a única aberta a um grande público e à imprensa, a abalaram profundamente, apressando sua morte, um mês depois. "A história de Florence corre hoje na contramão dos anseios da nossa sociedade, que só privilegia os campeões", observa Charles Möeller. "O carinho com que tratava as pessoas transcende seu fracasso como cantora."E a redenção surge no momento final, quando Marília Pêra finalmente revela sua extensão vocal para interpretar a Ave Maria, de Gounod, com perfeição, em uma arrepiante apresentação. "Florence sempre buscou a nota musical mais correta. E essa é a forma como ela gostaria de ter cantado." Diva Do GritoA trajetória de Florence Foster Jenkins é marcada por excentricidades, que lapidavam sua fama de louca. Veja algumas:Depois de um acidente em um táxi, amigos tentaram convencê-la a processar o motorista. Ela preferiu enviar-lhe uma caixa de charutos, pois acreditava que, depois do desastre, conseguia emitir um fá maior melhor que antes.Colecionava cadeiras, abarrotando sua casa com várias delas.E a decoração era unicamente em azul e dourado, suas cores preferidas.Florence era careca e adorava fazer quadros vivos, em que posava como se fosse uma pintura.Seguindo a moda da época, gostava de vestir peles de animais, mas sempre na cor branca.Gravou discos, pois acreditava que seriam souvenirs de sua arte.

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