Dépardon e as mudanças na França profunda

Diretor retoma seus perfis de camponeses no admirável Vida Moderna, que fez sucesso em Cannes, e afirma que o teatro está na base do documentário

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 00h00

Para o espectador brasileiro - para o cinéfilo que curtiu a nudez de Leila Diniz em Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira -, um filme como Vida Moderna, do francês Raymond Dépardon, talvez possua um significado um pouco diverso daquele pretendido pelo diretor. Você deve se lembrar, no grande filme de Domingos, como a câmera acariciava a beleza de Leila e de como a música de Gabriel Fauré realçava o clima amoroso das cenas. Nada mais diverso de Todas as Mulheres do que o novo documentário de Dépardon, exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, em maio. Mas Dépardon, como Domingos, embala seu filme na música de Fauré.A câmera avança por uma estrada gelada do interior da França. A neve cobre os campos, caem os flocos e o tema musical é o mesmo que emoldura Leila, a mulher solar de Domingos Oliveira. É lindo, mas esse estranhamento é coisa que talvez só o espectador brasileiro possa fazer. Na tela, em Vida Moderna, o que se vê é a investigação do diretor, filho de agricultores, sobre uma França profunda, interiorana, que está desaparecendo. Criadores de gado, pequenos agricultores, em geral homens e mulheres de uma certa idade, que reclamam da vida e dos impostos, mas que amam o que fazem.Repórter fotográfico para importantes agências internacionais, Dépardon fotografou as Guerras da Argélia e do Vietnã e em 1977 ganhou o Prêmio Pulitzer. Muitos críticos comparavam a beleza de seu trabalho como fotógrafo ao de Henri Cartier-Bresson, mas em Cannes Dépardon ressaltou que havia uma diferença importante. No tempo de Cartier-Bresson, a fotografia ainda não era considerada arte e isso o obrigava a fazer fotos de grande elaboração (e beleza) visual, justamente para vencer as resistências. Hoje em dia, a foto é considerada arte e os fotógrafos não estão mais obrigados a fazer esse trabalho de ?maravilhamento?. Ele pode fotografar seus camponeses como são - pessoas simples, ligadas à terra, em ações muitas vezes banais.Dépardon gosta de dizer que é mais intimista e poético quando fotografa. Quando filma, é militante. "Filmo para expressar alguma coisa, como uma forma de combate ou luta contínua." E contra o que ele combate, você é imediatamente tentado a perguntar? "Contra as instituições e contra o poder que se manifesta principalmente nas organizações que regem a vida nas cidades. Meus filmes discutem a polícia, a Justiça, a psiquiatria, a imprensa. São filmes que obtêm repercussão na França e que são minhas contribuições ao exercício da cidadania." São obras como Presos em Flagrante (Délits Flagrants), de 1994, e Instantes de Audiência (10ème Chambre), dez anos mais tarde.Em 2000 e 2004, Dépardon traçou uma série de perfis de camponeses. Ele volta agora a essas pessoas para perguntar o que mudou na vida delas. Encontra um velho amuado porque seu irmão se casou e agora eles têm uma mulher ditando regras na casa. Encontra outro casal que sonha com a expansão de seu pequeno negócio. Dépardon, que recebeu dois César, o Oscar francês, de melhor documentário, por Reporters e Délits Flagrants, reconhece que seu trabalho é fiel a uma idéia - sua necessidade de registrar um mundo que vai desaparecer. Para ele, o verdadeiro documentário "fica muito próximo do teatro". Este teatro da casa, da família, das refeições faz o fascínio do seu cinema. ServiçoUnibanco Arteplex 1 - Sáb., 16 h Cinemateca - Sala BNDES - 6.ª (24), 20h40 Unibanco Arteplex 2 - 2.ª (27), 13h30

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