Denise Stoklos mostra Mary Stuart

A chance é única de ver ou rever, hoje, o espetáculo que sedimentou o reconhecimento internacional de seu Teatro Essencial

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

11 de dezembro de 2008 | 00h00

Na sala arejada de grandes janelas que deixam entrar a luz da tarde ensolarada, em seu apartamento no bairro de Vila Madalena, em São Paulo, Denise Stoklos senta-se para uma conversa com a reportagem do Estado. Hoje à noite, no Teatro do Sesc Pompéia, quem não viu seu fascinante solo Mary Stuart tem nova chance, mas é só hoje. Amanhã ela apresenta Vozes Dissonantes e no sábado Calendário da Pedra.De saída, chama atenção o tamanho de suas mãos, imensas, e a viva expressão dos olhos. Características das quais ela sabe tirar proveito, como ninguém, no palco. Sem dúvida poucas atrizes têm o preparo corporal e vocal de Denise Stoklos. Quem já a ouviu sussurrar de costas e sem microfone, no Teatro Guaíra, e ser ouvida nas últimas fileiras da platéia de 2,1 mil lugares sabe que ela é capaz de manipular um requintado arsenal de gestos, expressões e nuances vocais quase sem limites.Mary Stuart estreou em 1987 no La Mama, em Nova York, e foi o espetáculo responsável por sedimentar uma linha estética criada pela atriz e batizada de Teatro Essencial. O que seria exatamente? Bem, em vários idiomas há artigos, teses e dissertações sobre essa linguagem teatral fundada sobre princípios que vão além da simples definição - como querem alguns - de solos com recursos de mímica e acúmulo de funções: na maioria deles, Denise Stoklos dirige, atua, cria a cenografia e o texto.Assinar também texto e direção, por exemplo, baseia-se na recusa da divisão de tarefas da era industrial que alienou trabalhadores - movimento presente também nos grupos teatrais que criam em processo colaborativo. "Há atores que dizem: a gente não sabe escrever. Gostaria que o teatro essencial se propagasse para que as pessoas tivessem noção de que se não houver um diretor ou dramaturgo não é preciso esperar. O ator tem potencial para criar o que quiser onde e como estiver."Ela lembra que sem cenografia ou iluminação ainda se faz teatro. "Sem ator é instalação." O Teatro Essencial poderia ser definido, de forma bem simples, como um teatro da potência do ser humano e entre seus princípios está o tratamento de temas universais. "Não há historinha, trama, enredo. Em Mary Stuart, por exemplo, o que interessa é por que duas pessoas acabam se destruindo por causa de poder, o que é uma questão da humanidade desde que ela existe, então é tema essencial para o homem", argumenta."Em Casa eu falo da solidão dentro do lugar que lhe deram para morar - uma casa onde o refrigerador não guarda mais a comida que você precisa porque tem fome. Dentro das embalagens não está o que necessita para se alimentar, por isso a personagem abre a geladeira como se fosse um espelho, senta e fica olhando, depois se levanta e troca duas embalagens iguais de lugar, porque essa embalagem vai ter o sentido que ela lhe der, fora isso, não tem mais nenhum."Também não há interpretação dramática no sentido tradicional. Ela ressalta, por exemplo, que em Vozes Dissonantes ela não precisa se ?travestir? de Pe. Antônio Vieira para expressar a potência de seu sermão. Um poema de Gertrude Stein é a fonte de inspiração de Calendário da Pedra, texto no qual Denise Stoklos explora o contraponto, desde o título, entre o transitório e o permanente. ServiçoDenise Stoklos: Teatro Essencial - 40 Anos. Hoje, Mary Stuart. Amanhã, Vozes Dissonantes. Sábado, Calendário da Pedra. 14 anos. Sesc Pompéia. (358 lug.). Rua Clélia, 93, Pompéia, tel. 3871-7700. Hoje a sáb., 21 h. Ingressos de R$ 5 a R$ 20

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