Delírios de amor em paraísos criados pelas canções

Dois contratenores, de tessitura vocal equivalente à feminina, arriscam-se em composições fora de suas especialidades

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Como encapsular música de alta qualidade em pílulas que não durem mais de 4 ou 5 minutos? Quem trabalha com a canção popular sabe como é difícil. Poucos sabem, porém, que os grandes compositores eruditos foram os primeiros a bater-se neste domínio. Sem capitular na direção da banalidade, conseguiram aliar a necessidade de comunicabilidade imediata com elevadíssima qualidade de invenção. Anteciparam mestres da canção popular como Irving Berlin, Cole Porter, George Gershwin e o nosso Tom Jobim.   Ouça trechos dos discosDois CDs lançados no mercado internacional diferenciam-se das interpretações rotineiras desse tipo de canção por suas propostas inovadoras. Releem com olhos e ouvidos de século 21 o magnífico repertório da canção culta. As novidades começam pelos intérpretes. Em lugar de sopranos, contraltos, tenores ou barítonos, dois contratenores (leia ao lado). Esses cantores, com voz feminina e muito maior potência vocal, em geral limitam-se ao repertório barroco do século 18 (período em que os "castrati" dominavam a cena musical europeia). Pois o alemão Jörg Waschinski e o francês Philippe Jaroussky adentram os reinos do "lied" e da "mélodie" quebrando ruidosamente esse dogma. Ambos estão na casa dos 30 anos, em plena maturidade vocal e são notáveis intérpretes. Waschinski, com um registro mais puxado para soprano, acaba de gravar dezesseis lieder de Clara Schumann, a mulher-pianista de Robert Schumann - mas não com acompanhamento convencional de piano, e sim em arranjos para quarteto de cordas (selo Phoenix). Enquanto isso, do outro lado do Reno, Jaroussky, o contratenor-sensação da cena francesa atual, assume risco ainda maior: enfrenta 24 "mélodies" francesas no CD Opium (selo Virgin).A canção culta teve historicamente duas florações excepcionais, na verdade, dois estilos bem caracterizados que nasceram, cresceram, atingiram o clímax criativo e desapareceram aos poucos, numa morte praticamente silenciosa. Primeiro veio o lied, a canção culta alemã para voz e piano, cujo ciclo vital vai de Franz Schubert, nas primeiras décadas do século 19, a Richard Strauss, até meados do século 20. Um arco de 150 anos preenchido com grandes compositores germânicos, de um gênero que mergulha fundo no romantismo e faz de cada canção praticamente uma viagem. Na França, o "lied" virou "mélodie", adquiriu personalidade própria e acrescentou a esta agenda romântica alemã refinamento, humor, gosto pela paródia e a busca da perfeição, cultuados nos disputadíssimos "salons" parisienses. Hector Berlioz, com suas Nuits d?Eté (1841), foi o precursor de um punhado de notáveis criadores que fizeram do reino da canção curta o seu gênero preferido.Jaroussky teve de "desaprender" para se dar bem nesta gravação. Ou seja, despir-se da afetação, aproximar-se o máximo possível da voz falada. Em suma, colar em intérpretes célebres do gênero, como Gérard Souzay ou Pierre Bernac. Numa das suas muitas entrevistas concedidas a revistas especializadas europeias, Jaroussky diz que ouviu mais Jacques Brel e Edith Piaf do que os acima citados. Entende-se: a mélodie nasceu nos salões elegantes de Paris. Imagine-se, por exemplo, o compositor que dá o eixo ao disco, Reynaldo Hahn (1873-1947). Ele cantava nestes salões acompanhando-se ao piano. Venezuelano cuja família fixou-se em Paris em 1878, ele sentia-se francês. O caso amoroso com Marcel Proust celebrizou-o. Dele, Jaroussky interpreta cinco canções. É difícil destacar qual delas é a melhor: o incrível pastiche neobarroco À Chloris, a resignada Offrande ou a melancolicamente bela L?heure exquise? Todo compositor popular atual deveria ouvir bijus como Sombrero, de Cecile Chaminade, compositora injustamente pouco conhecida (experimente a reflexiva Mignonne). E as quatro espantosas canções de Ernest Chausson? Ouça Les Papillons, com feérico acompanhamento de piano. Outro show de piano acontece na canção que dá título ao CD, Songe d?Opium, de Camille Saint-Saëns.Como é impossível comentar cada uma delas, fixemo-nos nas três que contam com convidados de luxo. Primeiro, o violoncelo de Gautier Capuçon, destaque da conhecidíssima Elégie, de Massenet. Em seguida, a flauta de Emmanuel Pahud dialoga com extrema finesse com voz límpida, supereconômica nos vibratos, de Jaroussky, em Viens, une Flûte Invisible Soupire, de André Caplet, outro compositor perversamente esquecido. Mas quem sabe a mais surpreendente intervenção, que soa quase como improviso, seja a do violino de Renaud Capuçon na belíssima Violons Dans le Soir, de Saint-Saëns.A pureza na linha do canto, a dicção clara e o timbre belíssimo fazem deste Opium um perfeito alucinógeno musical, que pode nos levar àquelas viagens por paraísos artificiais tão em moda no início do século 20. Não é por acaso que Jaroussky confessou em recente entrevista que seu ídolo é o maravilhoso tenor Fritz Wunderlich. Já a viagem de Jörg Waschinski é de outra natureza. Ele nos leva a um profundo mergulho pela intensa paixão vivida pelo casal Schumann - visto pela ótica musical de Clara (1819-1896). Ela tocou diante de Robert pela primeira vez aos 9 anos. Namorou-o depois, e contra a vontade de seu pai, por cinco anos. Permaneceram casados por dezesseis anos. Quando Robert morreu, ela tinha 40 anos e oito filhos para criar. Pianista excepcional - e também ótima compositora - renunciou à criação musical para não atrapalhar o marido.Estes dezesseis lieder, compostos entre 1831 e 1853, contam uma linda história de amor. Clara parou de compor com a morte de Robert e aplicou-se novamente com vontade à carreira internacional de pianista (sempre ajudada por Johannes Brahms, seu apaixonado platônico). Quase todos foram escritos para Robert. Waschinski, um das mais puras vozes de soprano entre os contratenores atuais, diz no texto do folheto do CD que quis trazer essas belas canções de um modo mais atraente para nossos ouvidos do século 21, a fim de conquistar novos públicos para o gênero. Acertou. Ele mesmo escreveu os arranjos para quarteto de cordas. E anota que o que o fascinou foi o fato de elas terem sido escritas ao mesmo tempo para sopranos e personagens masculinos. Realmente, sua escrita para quarteto é muito eficiente e amplia o arco expressivo das canções.Sombrios Sonhos, a primeira delas, foi oferecida a Robert como presente de aniversário em 1840 e brinca citando no acompanhamento alguns artifícios usados por ele no ciclo Carnaval (na peça Eusebius). Um dos mais belos é "Por que você quer acreditar nos outros, que são desleais?", sobre versos de Rückert, do ciclo Primavera do Amor, opus 12. Walzer relembra Papillons, de Robert, Der Wanderer retoma um dos temas mais recorrentes do romantismo musical e poético alemão, o do andarilho ou viajante.Da viagem amorosa ao delirante ópio, as duas trips são imperdíveis, e têm tudo para encantar não só quem já conhece esses gêneros musicais, mas também podem provocar o embarque de novos ouvidos.

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