Delicadeza que limitou a criação

Profissão Artista, de Ana Simioni, aborda o desprezo pelas mulheres nas artes plásticas do século 19

Lilia Moritz Schwarcz, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Durante o século 19, a arte parecia ser uma atribuição exclusivamente masculina. Para os iniciantes, o caminho mais fácil era a Academia de Belas Artes, responsável pela formação de um batalhão de profissionais, prontos para bem representar o Estado. Mas, se a escola formava artistas homens, já as poucas mulheres que conseguiam ingressar nesse sistema eram julgadas de maneira pejorativa e não passavam de amadoras, dedicadas a artes menores. Em vez das imensas telas históricas - consagradas à exaltação dos eventos que a agenda nacional deveria guardar -, para elas, o gênero correto seriam retratos ou naturezas-mortas.É esse ambiente, marcado por uma avaliação inferiorizada das mulheres - entendidas como o "sexo fraco" nos mais diferentes sentidos que a expressão pode comportar -, que Ana Simoni destrincha com cuidado e propriedade. Resultado de uma tese de doutorado, a pesquisa perdeu qualquer laivo de academicismo para ganhar uma primorosa edição, repleta de imagens que dialogam com as ideias e vice-versa. Em Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras, Simoni mostra como as limitações impostas às mulheres acabaram lhes reservando um lugar secundário, quando não o simples esquecimento. Numa época em que eram poucas as possibilidades de profissionalização, em que restava praticamente a profissão de parteira, a abertura dos cursos femininos de medicina, em 1879, representou uma revolução: um sinal dos sopros republicanos. No campo das artes, porém, a história seria mais lenta, e só em inícios do século 20 a carreira acabaria facultada às mulheres. Mas mesmo assim, estimava-se que apenas as atuações mais "leves" seriam aplicadas às artistas. Por isso mesmo, o acesso à instrução artística foi desigual e as primeiras candidatas entendidas como diletantes. A elas estaria reservado o espaço da beleza decorativa ou da excelência doméstica. Já o espaço da profissionalização ficaria restrito aos homens.Elas foram, pois, senhoras, donas, amadoras e produtoras de obras menores, como pinturas de flores e de artes aplicadas. Já os gênios eram, por definição, os artistas do sexo masculino. Os próprios termos usados para descrever as qualidades das pintoras - "feminina, graciosa, leve, delicada" - iam demarcando territórios restritos e reservados às mulheres; ainda mais quando contrastados aos termos "vigoroso, forte, másculo, viril, potente"; recorrentemente aplicados à produção masculina. Por outro lado, se aos poucos se construía a figura da mãe culta, que atuava nos moldes republicanos como símbolo da mulher moderna, seu oposto deveria ser evitado: a profissional combativa e competitiva.Simioni percorre os espaços institucionais existentes à época, mostrando um claro cerceamento, mas também a existência de novos escoadouros, como o Liceu de Artes e Ofícios, os ateliês particulares ou os próprios ambientes domésticos. Isso tudo num contexto em que faltava um mercado de artes, ou qualquer outro sistema paralelo. Diferente de Paris, que se firmava como a metrópole internacional das artes, e onde surgiam outros espaços para a formação de artistas, no Brasil a situação era ainda limitada e limitante. O ensino do nu e com modelos vivos era um impeditivo para moças de boa família, assim como as classes superlotadas e com alunos dos dois sexos irmanados em um mesmo espaço.Foi por isso que algumas brasileiras optaram por estudar na França, e acabaram ganhando uma formação mais sólida. Simioni descreve a carreira da jovem escultora Julieta de França, que com apenas 25 anos chegou aos ateliês de Paris e teve que lutar contra a falta de apoio da Academia brasileira, que ainda a acusava de ter laivos de "nervosismo". Apresenta também o caso de Helena P. da Silva Ohashi, uma retratista reconhecida por aqui, que encontrou na viagem ao exterior não só a possibilidade de aprimoramento técnico, como a oportunidade de se desligar do ambiente provinciano, que lhe limitava as oportunidades de expressão.No entanto, há também o caso de mulheres ou filhas de artistas, que, contando com o acolhimento familiar, puderam desenvolver carreiras solo. E aí começam a aparecer as verdadeiras personagens deste belo livro, que, diga-se de passagem, tardam um pouco a surgir. Um bom exemplo é o de Angelina Agostini, nascida da união ilegítima entre o renomado caricaturista Angelo Agostini e a menos lembrada pintora Abigail de Andrade. É o caso ainda da escultora Margarida Lopes de Almeida, filha dos escritores Filinto de Almeida e Júlia Lopes de Almeida.São muitas as trajetórias, e o livro impressiona não só pela pesquisa inédita e de fôlego, como pela sensibilidade com que a autora descortina esse ambiente tão particular como obliterado. Se existe um verdadeiro processo de borramento da arte acadêmica brasileira, o que dizer das artistas que frequentaram esse mesmo circuito? E nomes de talento não faltavam: Abigail de Andrade com seus belos autorretratos e pinturas do cotidiano; Berthe Worms e suas telas sobre a urbanização paulistana rápida; as escultoras Julieta de França (que sofreu com o monopólio de Rodolfo Bernardelli) e Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto, que até em seus autorretratos evitava a afirmação da sua feminilidade. Isso sem esquecer de Georgina de Albuquerque, a única a competir na mesma raia dos homens, produzindo telas históricas como a que fez sobre Leopoldina, que é retratada ao centro da cena e como artífice da independência.São pequenas ousadias, ousadias discretas, que ganham outra dimensão quando contrastadas com o ambiente masculino que então grassava, ou com a representação dominante que mostrava mulheres passivas diante de uma história que as antecedia e controlava. Atenta às práticas concretas e às biografias particulares, Ana Paula Simioni nos dispõe diante de "situações de gênero" sem fazer coro à vitimização feminina. Com sensibilidade, a autora nos introduz a personagens divididas; identidades fragmentadas, que aparecem claramente retratadas nas próprias telas. A profissional que se autorretrata no exercício profissional de seu ofício, mas que introduz um vaso de flor disperso no ambiente; a artista que se faz representar em seu ateliê quase que igualada a um homem, não fosse a cintura mais afinada - aí estão detalhes falantes, que marcam uma situação de ambiguidade ou reintroduzem marcadores sociais de gênero.Profissão Artista é também um excelente pretexto para recuperar, ao lado de toda uma nova produção, a importância do período acadêmico nas artes brasileiras sem usar as lentes detratoras dos modernistas, que elegeram o Barroco como nossa "produção legitimamente nacional" e conferiram à produção do século 19, o local da imitação. Utilizando-se de uma via inesperada, Simioni mostra como há um vasto e interessante caminho até chegarmos às consagradas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e como seu despontar no cenário das artes não foi fato isolado, e sim parte de um percurso social tão difícil como constantemente silenciado. Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento deAntropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil:Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras Ana Paula Cavalcanti SimioniEdusp, 360 págs., R$ 74

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