Delicadeza na apreensão dos sentimentos

Felicidade Conjugal (1859), uma das primeiras novelas escritas pelo prolífico autor, enfatiza detalhes do relacionamento amoroso

Aurora F. Bernardini, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Felicidade Conjugal foi uma das primeiras novelas escritas pelo conde Lev Nikoláevitch Tolstói que, após várias tentativas universitárias não levadas a cabo, ingressara, para experimentar-se, na carreira militar, seguindo as pegadas do irmão mais velho, Nikolai, oficial de cavalaria no Cáucaso. Provada a sua coragem na defesa de Sebastópol - onde, após inúmeras aventuras libertinas e dívidas de jogo, servira heroicamente -, Lev fora em seguida transferido para São Petersburgo como oficial mensageiro, seu último encargo antes de obter baixa no exército. Depois de alguns contos ainda não publicados, tivera o manuscrito da primeira parte de sua trilogia Infância, Adolescência, Juventude aceito por Nekrassov para sair na prestigiosa revista literária peterburguense Sovremiénnik (O Contemporâneo). Familiares, críticos e amigos (entre os quais o influente Turguénev) o aplaudem e insistem: seu caminho é escrever. Em Petersburgo, ele conhece a fina flor da intelligentzia liberal: Tiútchev, Gontcharóv, Grigórovitch, Písemski, Panaev, Polonski, Ánnenkov, Fet... Todos sorriem de suas maneiras de "troglodita" e lhe admiram o "ardor selvagem". Mesmo em Moscou, onde conhece os irmãos Aksákov, adeptos do "eslavofilismo" - e empenhados em defender a cultura russa tradicional contra a de importação europeia que agradava aos ocidentalistas petersburguenses -, Lev não abandona aquele ar provocador, crítico e arredio que parece ter adotado como seu. "Naquele período eu era particularmente desprezível", escreverá ele no diário (1903) que, iniciado em 1847, manterá durante a vida inteira. Enfim, após ter brigado até mesmo com Turguénev e partido para o estrangeiro por um breve período, Lev se instala em Iásnaia Poliana, a propriedade de Tula, não longe de Moscou, onde nascera, que a mãe lhe deixara como herança e que logo viria a ser palco de suas experiências pedagógico-libertárias. Inicia sua vida no campo cheio de regras e horários que ele estabelecia para si mesmo, e de boas intenções - sabe-se que era um leitor cuidadoso, anotando numa espécie de breviário as frases que considerava notáveis (tal como o nosso Machado de Assis), e um férreo autodidata, tendo chegado, mais tarde, a aprender sozinho o grego antigo.É nessa época que ele passa a frequentar a casa dos Arsénev, vizinhos de Iásnaia Poliana, por se achar seriamente enamorado pela jovem Valéria, a filha do casal, a quem escreve longas cartas sobre a fenomenologia de seu estado, os ciúmes que porventura sentia, a santidade do matrimônio (elementos-chave da futura novela Felicidade Conjugal, em fase de gestação), mas não chega a declarar-se. Pelo contrário, larga tudo e parte de novo para a Europa. Depois de Paris, os Alpes, a Itália, a Suíça e Baden Baden. Em fins de 1857 fixa-se definitivamente em Iásnaia Poliana, afora as idas a Moscou no período invernal, onde, durante certo tempo, crê estar apaixonado por Ekaterina, filha do poeta Tiútchev. Escreve contos e novelas - A Nevasca, O Degradado, Os Dois Hussardos, A Luzerna, Albert, Três Mortes -, discute com os nobres de Tula sobre os compromissos a serem propostos aos camponeses, uma vez que a servidão da gleba está para ser abolida pelo czar e, durante uma caçada, é ferido na testa e na face por uma ursa. Em 1859 está amasiado com uma camponesa de Iásnaia, a formosa Aksínia Bazúkina, a quem deixará após o nascimento de Nikita, seu filho natural. Em 1862 casa-se, finalmente, com Sófia Bers, (Sonia), filha de um médico do Krêmlin. Ela tem 18 anos e Tolstói, 34.Quem não tivesse em mente a cronologia da vida e obra do escritor talvez achasse, com razão, que Felicidade Conjugal, de 1859, (que ganha agora tradução para o português de Boris Schnaiderman e será lançada no dia 10 de setembro pela Editora 34) poderia ter-se inspirado na vida dos Tolstói, logo após seu casamento (o título, no original, é Felicidade Familiar). De fato, a novela é como que um recorte de sua vida doméstica e sentimental, sem preocupações de ordem política ou religiosa: a moça bem mais jovem que o marido - conhecedor das "coisas" do mundo e por elas obscuramente atraída; o idílio no campo; o tédio que a envolve; a mudança para a capital; os ciúmes de um lado e de outro; a atração do "abismo"; a culpa e o perdão implícitos; a volta ao campo; a serenidade e "outro tipo de amor", à vista dos filhos que crescem e a quem o futuro espera.Na verdade, o relacionamento de um casal é um dos leitmotiven da obra tolstoiana. Quem não lembra a frase que abre Anna Karênina: "Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira"? E, mesmo em Guerra e Paz, as relações dos vários grupos familiares ligados à personagem Natasha são descritas com sutileza extrema. Isso sem falar em Sonata a Kreutzer, em que as relações conjugais são exacerbadas, acompanhando o período borrascoso vivido por Tolstói em sua casa, depois da "crise" de 1880, e minuciosamente descritas também pela mulher de Tolstói, que mantinha igualmente um diário. Relações essas que 20 anos mais tarde em Padre Sérgio e Ressurreição (1898), irão enveredar pela vertente mística.O que assombra em Felicidade Conjugal, narrada pela protagonista em primeira pessoa, mais do que o enredo, é a profundidade e a delicadeza da apreensão dos menores detalhes significativos: o tom de voz, a expressão do olhar, o ritmo da respiração, juntamente com o sábio disfarce dos arquétipos sentimentais e sexuais que marcam as etapas da sedução, do desencantamento, da reconquista, e que Tolstói, como bom musicista que era, soube semear desde o começo da narrativa, para retomar mais tarde. Nem falta à novela aquilo que Tolstói considerava a condição sine qua non da criação artística e que analisou em O Que É A Arte: o fenômeno da contaminação. Nada mais apropriado do que o enamoramento para exemplificá-lo: "Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos de então" - diz a narradora - "não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e a iluminaram." Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da Universidade de São Paulo

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