''Deixem a arte em paz''

Sem se sujeitar ao mercado, Alceu Valença ressalta a porção árabe das tradições nordestinas no CD Ciranda Mourisca, em que recria parte esquecida de sua obra

Lauro Lisboa Garcia, OLINDA, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

No aprazível jardim elevado da Pousada do Amparo, em Olinda, Pernambuco, Alceu Valença passa a tarde de verão encarando uma batelada de entrevistas para falar de seu novo álbum, Ciranda Mourisca, o primeiro licenciado para a gravadora Biscoito Fino. O que para outros artistas é uma mera formalidade promocional, para ele se transforma num prazer que salta aos olhos: falar de sua arte e da dos que o cercam. O séquito de admiradores ao redor se envolve nas histórias, algumas tão mirabolantes que parecem ficção, mas há testemunhas presentes.Inquieto e bem-humorado, Alceu diz que vive o melhor momento de sua carreira como artista de grande popularidade. Trovador nato, filho e neto de poetas populares, ?cantautor? de profundas interpretações, tem a fala sempre carregada de poesia e uma teatralidade natural. Nem é preciso começar a entrevista com uma pergunta. Alceu já dá arrancada com seu discurso em defesa da criatividade artística, que nele pulsa com uma vitalidade de perder o fôlego, aos quase 63 anos de idade, 35 de carreira das mais brilhantes.Pioneiro no cenário pop pernambucano, mesclando a tradição regional com rock e blues, Alceu firmou sua identidade reverenciando as matrizes. "Minhas etnias são muitas e misturadas. Minhas referências são o samba de Noel Rosa, lundu, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, frevo, e não só isso", diz. "Por que tudo isso? Pelo culto e o respeito às coisas de meu país. Em relação à cultura não sou fechado nem conservador, mas tem de existir prioridades, como em tudo na vida."Alceu se mostra indignado com o que ele chama de "massacre absurdo da mídia" que "destruiu a música da gente". São parentes de deputados que têm concessão de rádios e investem num gênero conhecido como porno-forró, feito por gente que não tem noção do que é música, não sabe cantar nem tocar. "Tudo bem, é um negócio, mas há mil maneiras de se enriquecer, deixem a arte em paz." Arte é o que se aprecia em Ciranda Mourisca, em que Alceu revisita diversas de suas fontes, absorvendo também as externas. Uma delas, que remete ao tempo do Descobrimento, trazida pelos portugueses, é a influência árabe de Marrocos e do sul da Espanha, que ele ressalta no CD. Porém, nem a ciranda nem a sonoridade árabe estão explícitas no disco. Mas se expressam sutilmente nas cordas do violão e na voz de Alceu e pela guitarra de seu fiel parceiro Paulo Rafael. Só em duas faixas - Deusa da Noite (Dia Branco) e Ciranda da Rosa Vermelha - há uma tabla, em que aproxima com maior evidência da tradição do Oriente Médio.Voltando ao lance de "deixar a arte em paz", o protesto retrocede duas décadas atrás, quando Alceu era contratado da BMG (hoje agregada da Sony) e queriam que ele se submetesse aos modismos impostos pelos Sullivan e Massadas que dominavam o mercado de então, mandando nas gravadoras e impondo suas composições, "para ganharem com direito autoral"."Em 1986 tentaram me destruir. Eu não, destruíram a música brasileira toda. Ou a gente gravava o que eles queriam ou não tocava no rádio. Quem não entrou no jogo dançou." Alceu conta que certa vez chegaram com a proposta para ele gravar Coração Besta, "uma palhaçada em cima do Coração Bobo", um de seus clássicos, achando que era a cara dele. Ele, que não era besta, ignorou e manteve a dignidade como poucos na música brasileira nos anos 80.Em consequência disso, seus álbuns, a partir do antológico Estação da Luz (1985), foram boicotados pela gravadora, para a qual voltou em 1994, depois de passar pela EMI. "Começaram a dizer que minha música não era popular. Como não? Solidão, Anunciação, Tropicana, Pelas Ruas Que Andei, tocava tudo no rádio. Eu tinha de preservar a minha música e comecei a só pensar em show, esquecer de disco." Hoje Alceu tem todos os seus álbuns amarrados nas gravadoras. A Universal, que detém o acervo da Ariola, nunca lançou em CD os álbuns Cinco Sentidos (1981), Anjo Avesso (1983) e Mágico (1984).Ciranda Mourisca, produzido por Alceu, é também um meio de recuperar parte do material esquecido daqueles discos dos anos 80. Fazem parte desse seu "lado C" canções de grande beleza como Pétalas (a única do CD em que divide a autoria com um parceiro, Herbert Azul), Amor Que Vai, Sino de Ouro, Íris e Chuva de Cajus, que ganham agora versões melhores do que as originais e soam como inéditas. Loa de Lisboa (de Andar, Andar, 1990) é um primor, cuja letra é um retrato fiel do que ocorreu com Alceu (de ressaca) na capital portuguesa, debaixo de chuva à espera de um amigo brasileiro, "que morava na Rua da Mãe d?Água, ao pé da Praça da Alegria", um endereço pra lá de inspirador.De Molhado de Suor (1974), seu primeiro álbum-solo, ele pinçou quatro canções: Dia Branco, a faixa-título, Mensageira dos Anjos e Dente de Oriente. Mas o ponto de partida foi Ciranda da Rosa Vermelha, com refrão emprestado do folclore, que teve um bem-sucedido registro de Elba Ramalho. É a única faixa do disco que Alceu nunca tinha gravado.Ele nem sabe ainda quando vai se apresentar em São Paulo. Sua agenda está cheia de shows marcados para antes, durante e depois do carnaval em diversas cidades, além de Recife. Além do novo disco, outro motivo de entusiasmo é que finalmente conseguiu captar recurso para realizar seu filme Cordel Virtual, que escreveu, vai dirigir e talvez até atuar. Os diálogos são todos em versos e o elenco será formado por atores nordestinos. Alceu já compôs uma infinidade de canções para o filme, mas também pretende usar músicas antigas de Cauby Peixoto e Núbia Lafayaette, "como que saindo do som de um radinho da cena", mas interpretadas por ele. A imitação perfeita que ele faz dos dois é mais uma de suas peripécias impagáveis. O repórter viajou a convite da Biscoito Fino

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