Definitivamente favorito

João Emanuel Carneiro fura o cerco da ?panelinha? dos grandes autores de novela

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

11 de dezembro de 2008 | 00h00

Se fosse possível eleger apenas uma característica da personalidade intrigante do autor João Emanuel Carneiro, depois de um encontro de pouco mais de duas horas, seria a capacidade de definir coisas complicadas em idéias simples, mas que dizem muito. Para ele, por exemplo, escrever novela das oito da TV Globo, o mais visto e comentado produto cultural do País, é como fazer o jantar para uma família de umas 50 pessoas. "Durante oito meses, todo mundo pergunta quem é que vai cozinhar essa janta, a refeição mais importante da família, porque todo mundo está em casa", resume o autor, no ar com A Favorita, sua estréia no seleto grupo de autores que durante 20 anos teve apenas seis nomes - agora, tem sete.A novela A Favorita é um jantar que começou a ir à mesa em meio a um "11 de Setembro para a TV Globo", admite Carneiro, agora satisfeito com o sucesso da trama, hoje marcando 47 pontos no ibope (cada ponto equivale a 56 mil domicílios). Em junho, quando entrou no ar, a trama foi classificada como "a pior estréia de todos os tempos de uma novela das 8", ao marcar 35 pontos de audiência. Numa operação sem precedentes, a TV Record estreou a segunda fase de Mutantes - Caminhos do Coração e transformou o autor Thiago Santiago no Lex Luthor do ano, ao render uma audiência de 24 pontos. "Foi um golpe de Estado, golpe de mestre, porque eles puseram uma coisa que fazia sucesso em outro horário ao mesmo tempo em que a Globo começava uma nova novela", observa Carneiro, que recebeu o Estado em seu apartamento no Leblon, no Rio.Mas não foi só o manejo da Record que prejudicou A Favorita. Trama soturna, fotografada em noir, ela pretendia confundir o telespectador diante da dúvida sobre quem era a vilã e quem era a mocinha - Flora (Patrícia Pillar) ou Donatela (Cláudia Raia), sendo que a malvada seria a assassina de Marcelo, homem disputado pelas duas. "De alguma forma, as pessoas não conseguiram assimilar a coisa da dubiedade das personagens, que é o principal da novela. É uma questão simples, qualquer filme tem isso", reflete o autor.Na época de lançamento da novela, de fato, as chamadas dentro da programação da Globo perguntavam ao telespectador "quem está falando a verdade?". "Gente, como podem não ter entendido? Só pode ser porque essa novela contrariava a fórmula do bolo", anota o autor, que diz ter chegado à conclusão de que a trama só começou a ser aceita pelo público e pela imprensa especializada depois do capítulo 54, quando foi revelado que Flora, com seus cachinhos loiros, é a vilã."Não é ?um quem matou?, um policial clássico. É sobre a dubiedade, o valor das aparências, a ética. Não é uma coisa que eu vou encontrar um mordomo ou que é a Catarina (Lilia Cabral) a verdadeira assassina", diz.Nesta entrevista, o autor fala sobre os bastidores mais particulares da novela, protagonizados por ele diante do computador. Faz algumas confidências - "Eu manipulei a imprensa no começo da novela. Sempre soube que a assassina era a Flora. Isso não foi decidido depois, claro que não. Mas era importante que todos ficassem na dúvida para o andar da trama" - e dá algumas pistas do desenrolar da trama até o final, em janeiro. Trama que não tem o "quem matou?" nem o "quem vai ficar com quem?". "A Favorita é um revólver de uma única bala", define.Agora, que a gente já ouve coisas tipo "você viu o Gonçalo (Mauro Mendonça) e o Halley (Cauã Raymond) ontem?", já dá para perceber que A Favorita repercute muito bem, além da boa audiência. Mas como foi no começo? Como se sentiu ao ser o responsável pela "pior estréia de todos os tempos de uma novela das 8"?Foi tudo contra, tive um lançamento muito difícil. Tive uma trombose, inclusive. Eu fazendo uma novela das 8 pela primeira vez e houve um ataque. A TV Globo foi, de fato, atacada por outra emissora. Nunca tinha acontecido isso e foi acontecer justamente com uma história ousada, fora dos padrões usuais. Houve também uma dificuldade muito grande do próprio meio, da imprensa especializada, de absorver algo novo. O brasileiro rejeita quem chega, senti um pouco isso. Um cara tão jovem como eu (ele tem 38 anos) num lugar como esse é uma coisa muito estranha para as pessoas. Mas acho que qualquer pessoa que comece a fazer novela das 8 vai passar pelo mesmo problema. Seis autores apenas monopolizaram o horário durante 20 anos, imagina.

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