Nelson Almeida / AFP
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Defensora dos ianomâmis, fotógrafa Claudia Andujar ganha exposição em Paris

Andujar, 88 anos, começou a registrar a vida desse grupo indígena em 1971, depois de visitar a comunidade situada nas profundezas da selva amazônica, em Roraima, na fronteira com a Venezuela

Redação, AFP

30 de janeiro de 2020 | 14h11

Aos 88 anos, a fotógrafa brasileira de origem suíça Claudia Andujar defende há cinco décadas os direitos dos ianomâmis. A incansável octagenária, no entanto, considera que essa é uma luta contínua.

Andujar começou a registrar a vida desse grupo indígena em 1971, depois de visitar a comunidade situada nas profundezas da selva amazônica, em Roraima, na fronteira com a Venezuela.

A maior retrospectiva de sua obra será exibida em exposição em Paris, a partir desta quinta, 30. Na mostra, a fotógrafa busca enfatizar as novas ameaças enfrentadas pelos ianomâmi no governo do presidente Jair Bolsonaro.

"Os ianomâmis são meus parentes, fazem parte da minha família, e eu quero defender a minha família", ressalta Andujar em entrevista à AFP, em seu apartamento em São Paulo.

Enfrentando o intenso calor amazônico e a malária, a fotógrafa se acostumou a passar várias semanas no território desse povo indígena para capturar o seu cotidiano, registrando suas expedições de caça e seus rituais xamânicos.

"Busco acompanhar o seu modo de vida... fazê-los entender que só queria me tornar amiga deles", conta sobre os seus primeiros dias de convívio com os ianomâmi.

"Nunca tinha fotografado eles. Eles não entendiam o que eu estava fazendo, e eu não queria que se sentissem invadidos", acrescenta.

Ao fazer uso experimental de filmes infravermelhos, flashes e até mesmo manchando a lente da sua câmera com vaselina, Andujar criou imagens distorcidas que dão uma nova visão do complexo mundo espiritual dos ianomâmi.

"Ela tentou transmitir e representar elementos que eram invisíveis aos olhos ocidentais", comenta Thyago Nogueira, do Instituto Moreira Salles e curador da exposição, que acontecerá na Fondation Cartier, em Paris.

A exposição A Luta dos Ianomâmis reúne cerca de 300 fotos - em sua maioria em preto e branco - tiradas entre as décadas de 1970 e 1980.

Em 2019, uma versão reduzida da mostra foi exposta em São Paulo e no Rio de Janeiro, chamando a atenção da instituição francesa.

"Não se trata somente de uma jornalista que quer contar uma história ou de uma antropóloga que registra uma sociedade", explica Nogueira. Andujar "se submergiu por completo e se sentiu livre para experimentar", acrescenta o curador.

Ameaças crescentes

À medida que os ianomâmis - que têm uma população de aproximadamente 27 mil, entre diversas faixas etárias - começaram a sofrer uma crescente de ameaças, a exibição mostra a transformação de Andujar de fotógrafa a ativista.

Nos anos 1970, os governos militares começaram a construir estradas com o intuito de desenvolver a região amazônica.

Os ianomâmi e outras etnias foram devastadas pelas doenças propagadas pelos que vinham de outros locais para explorar a região, além de sofrerem com invasões violentas de suas terras por garimpeiros.

Depois de ser expulsa da região por autoridades, em 1977, Andujar se aproximou do porta-voz ianomâmi, o xamã Davi Kopenawa, em uma campanha para obter a demarcação legal das terras desse povo, que foi finalmente concedida em 1992.

Andujar usou sua câmera como ferramenta política para "evitar um genocídio", disse Nogueira.

No entanto, esses direitos conseguidos após tanto esforço, seguem sofrendo ameaças.

"Se o governo decide que quer extrair ouro e outros minerais, vai tratar de fazê-lo", alerta a fotógrafa.

Os seus temores se intensificaram com o governo de Bolsonaro. No primeiro ano de sua gestão, o desmatamento na região amazônica aumentou 85%, segundo dados oficiais.

Recentemente, o governo anunciou que pretende apresentar ao Congresso uma lei para autorizar a mineração em terras indígenas.

"Bolsonaro não tem experiência nenhuma com os indígenas", afirma Andujar.

"Direito à vida"

Ao deixar a Europa em plena Segunda Guerra Mundial, a fotógrafa viveu dois anos em Nova York e então voltou a morar com a sua mãe no Brasil, em 1955.

A morte do seu pai, um judeu húngaro, e de boa parte de sua família nos campos de concentração alemães e poloneses, influenciaram no aumento da sua determinação em proteger os direitos dos ianomâmi.

Uma luta por algo nesse nível "foi algo que não pude fazer durante a Segunda Guerra Mundial", explica.

A última vez que visitou os ianomâmi  foi há dois anos, e ainda não sabe se voltará.

Andujar pretende participar da abertura da exposição em Paris, onde espera conhecer líderes políticos como o presidente da França, Emmanuel Macron, para discutir as suas preocupações.

Os indígenas "têm direito de viver, eles que têm que decidir o que querem, e não o governo", finaliza.

 

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