Debate estimula a polarização filme-teatro

Convidados do Caderno 2 apontam as diferenças de atuação nos dois meios

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

Todos amaram o jogo de cena proposto por Eduardo Coutinho em seu novo filme, mas não houve consenso entre os integrantes do grupo que a reportagem do Estado formou, na terça-feira de manhã, para discutir o lançamento de hoje. Híbrido de documentário e ficção, Jogo de Cena documenta os depoimentos de algumas das mulheres que atenderam ao apelo de um anúncio publicado na imprensa do Rio. Independentemente de idade ou classes sociais, o filme chamava mulheres interessadas em participar de testes para a realização de um filme. Selecionado um certo número de depoimentos, o diretor pediu a um grupo de atrizes que os recriasse na tela, ficcionalmente. Em alguns casos, as atrizes são muito conhecidas - Marília Pêra, Fernanda Torres, Andréa Beltrão. Em outros, o jogo fica mais complicado e é difícil descobrir quem é a atriz e quem é a personagem. Veja o trailer do documentário Jogo de Cena no siteA reportagem do Estado inverteu a equação e, se Coutinho, um homem, fala com e sobre mulheres, o grupo reunido no Espaço Unibanco era formado por uma diretora (Laís Bodanzky) e cinco dos mais conhecidos atores de teatro de São Paulo e do Brasil (Claudio Fontana, Zecarlos Machado, Leopoldo Pacheco, Pascoal da Conceição e Eduardo Reyes). Eles e ela se emocionaram com o filme, mas houve o maior quebra-pau na hora de discutir realidade e ficção, teatro e cinema. Entre acusações do tipo ''''diretores de cinema não sabem dirigir atores'''' (dito por eles) ou ''''atores de teatro são caricatos'''' (dito por ela), uma coisa é certa - Jogo de Cena foi recebido como um grande filme sobre mulheres, na intimidade, e uma rara homenagem à arte do ator (no caso, da atriz).Laís - Vou começar dizendo o que senti: Coutinho é um gênio na arte de fazer com que as pessoas falem e se exponham. Acho que nenhum outro diretor tem essa habilidade maior que a dele e o filme vai fundo na análise dos sentimentos, na discussão da própria identidade da mulher. Mas eu acho que, desta vez, trabalhando com atrizes na recriação dos depoimentos, o Coutinho se superou e fez um jogo de cena que extrapola mídias e presta uma grande homenagem à arte dessas atrizes.Pacheco - Concordo com que diz a Laís, mas acho que o mais bacana em Jogo de Cena é a forma como Coutinho trabalha nas bordas, seja do cinema ou do teatro, da realidade e da ficção, misturando tudo de forma a que, salvo em alguns casos, a gente não saiba mais quem é atriz e quem é personagem. Acho que este é o verdadeiro jogo do filme. Lá pelas tantas, para mim, pelo menos, não importava mais quem era atriz e quem era personagem. A emoção era tão genuína que eu embarquei no depoimento daquela mulher que perdeu o filho e, depois, quando outra mulher começou a contar a mesma história, eu fiquei na dúvida - meu Deus, a outra era a atriz, essa é quem está contando a própria experiência. Mas será mesmo? As duas são tão verdadeiras...Pascoal - Acontece que eu sei quem é a atriz e quem é a personagem, mas isso não importa muito porque o essencial é a questão da emoção. E a diferença que eu acho que o filme estabelece ou proporciona é justamente essa de discutir os limites. As mulheres que responderam ao anúncio e viraram personagens podem ser atrizes delas mesmas, mas elas passam sua emoção instantânea, no ato. O Coutinho sabe como criar o clima, criar o vínculo entre diretor e personagem. Aquelas mulheres se desnudam em cena. Parece coisa de filme de (Ingmar) Bergman. Mas eu não sei se elas seriam tão autênticas, ou tão sinceras, se houvesse qualquer tipo de problema - com a luz, por exemplo - e tivessem de repetir a cena. Aí a coisa muda de figura. Na repetição, entra a técnica e aí o ator se faz necessário.Laís - Não sei se estou completamente de acordo, porque pela minha experiência eu posso dizer que o ator também muitas vezes perde a potência, e o frescor, ao repetir muito as cenas. O ideal é captar logo a emoção, se der na primeira tomada, mas no cinema existem muitas vezes os chamados impedimentos técnicos.Pascoal - Eu acho que existe aí um outro problema. O cineasta brasileiro dirige muito mal os atores ou não sabe dirigir. Claro que nós temos interpretações antológicas. O Paulo Autran, que morreu há pouco e era o maior ator brasileiro, cria um personagem que é a representação do próprio regime militar em Terra em Transe. Ele pega aquela cruz e grita que quer resolver os problemas do povo. Dá para sentir o Glauber dirigindo o Paulo de trás da câmera. Levanta a cruz, grita mais. É uma coisa teatral, mas Glauber era gênio. Tinha uma visão do personagem e do trabalho do ator. A maioria dos cineastas simplesmente não sabe como dirigir os atores. Hoje em dia, existem ''''preparadores de elenco'''', que preparam os não-profissionais para as cenas. Acho uma coisa autoritária, fascista. A idéia é vincular o cinema ao real e aí se prescinde do ator. Pega o menino de rua e faz terrorismo com ele. Diz que a mãe vai morrer, dá tiro no pé e arranca dele não a emoção controlada que o ator pode dar, mas a histeria. Acho isso horrível, não tem nada a ver com interpretação.Laís - Como, não tem? Você está falando daquele garoto no Cidade de Deus? Como que ele não está representando? Aquela pode ser parecida, mas não é a história dele e ele está conseguindo nos passar toda aquela tragédia. Acho que não é uma questão do cinema brasileiro. Está no cinema mundial mais autoral, uma coisa de levar o cinema mais próximo do real. Eu vou defender que o menino do Cidade de Deus está representando. Existem muitas formas de representar. (Pascoal interrompe e pergunta a Laís quais os atores brasileiros que foram formados no cinema. Insiste que a grande escola é o teatro e que a ''''preparação'''' de elenco prepara só a cena, não a arte de representar.) A grande escola do ator brasileiro é o teatro, mas ele vem para o cinema com uma idéia muito teatral. A câmera, de maneira geral, repudia a teatralidade, o caricato. Busca o naturalismo, mas não o naturalismo da TV. E nós trabalhamos com isso. Trabalhei com preparador de elenco no Bicho de Sete Cabeças. Pega o Gero Camilo, que é um grande ator de teatro e cinema. O Gero fez o que acho fundamental: pesquisou o personagem, criou uma história para ele, uma psicologia. Era capaz de agir e pensar como o personagem, independentemente do roteiro. Isso é se preparar, estudar, coisa que não é todo mundo que faz no cinema, mas é importante. Eu, quando escolho atores, faço entrevistas, porque me interessa descobrir o ator certo. 50% do personagem vem do roteiro, mas os outros 50% vêm do ator, da presença física dele.Machado - Temos de considerar a diferença de mídias. Concordo que atuar para cinema é diferente de atuar para teatro ou TV. Cada meio tem suas nuances específicas e o mais impressionante no filme do Coutinho é que ele realmente trabalha nas bordas. Existe a ficção e a realidade, mas ele não delimita claramente. É cinema, é teatro, é realidade, é ficção, tudo misturado. Mas o Pascoal tem razão. Não estou dizendo que as interpretações roubadas por preparadores de elenco não fiquem boas. O método para se chegar a elas é que me parece discutível, a menos que a gente acredite que os fins justificam os meios...Fontana - Essa história de estudar, preparar, é o que fazemos todo dia, todo tempo no nosso trabalho. Construímos o personagem. É diferente de preparar para a cena, a câmera capta a emoção e pronto, acabou. Criar um personagem não visa somente o momento. É todo um estado de coisas que é preciso desenvolver (e manter). Por exemplo, voltando ao filme, acho muito bacana a coragem da Fernandinha (NR - Fernanda Torres), quando ela admite que não está conseguindo criar a personagem em Jogo de Cena. Essa é a grande discussão que o filme proporciona. Quem está vivendo, quem está representando? E, se os limites ficam tão tênues, o que é representar? Coutinho fala com as atrizes sobre o método e as dificuldades que experimentaram. Acho muito interessante a fala da Andréa (Beltrão) dizendo que se segurou para não chorar, porque a mulher que ela representava não havia chorado. Mas ela não estava imitando e a emoção foi mais forte. A Andréa chora e sua personagem, não. A Marília (Pêra) também diz uma coisa interessante: as lágrimas são bem-vindas para o ator. As pessoas, pelo contrário, têm pudor em relação às próprias lágrimas, tentam disfarçar, esconder. Isso pode ajudar a gente a identificar quem é quem nos dois depoimentos sobre o filho que morreu. Mas isso talvez resolva a curiosidade sem resolver o problema - a emoção é forte, seja na mulher ou na atriz, independentemente de quem for quem.Reyes - Eu não sei se extrapolo, mas vi ali uma coisa que me fascinou. Como o Coutinho não se interessa em diferenciar quem é atriz e quem não é, coisa que a gente faz em alguns casos porque sabe quem são as pessoas em cena, a gente poderia pensar que são todas atrizes representando e que todas as histórias são fictícias. E aí me parece que o que está em discussão é a manipulação. O teatro manipula a emoção da gente, mas o cinema mais ainda.Pascoal - É interessante comparar a emoção dessas mulheres - e o Coutinho filmou os depoimentos delas num teatro, é bom não esquecer - com outro teatro que a gente viu recentemente, o das CPIs, transmitidas pela TV Senado. Aqueles homens, os políticos, ficavam jurando inocência, negando corrupção, mas não convenciam, ao contrário dessas mulheres do Coutinho. Elas são todas, atrizes ou não, pura emoção. Lá na CPI a impressão dominante era de falsidade.Machado - Ah, mas não dá para comparar. Aqueles caras (os políticos) eram todos canastrões!

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