De volta aos discos essenciais de Tom

Títulos do compositor que estavam fora de catálogo são relançados em CD

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2008 | 00h00

Tom Jobim (1927-1994) é o compositor brasileiro a que os intérpretes mais recorrem. Sua obra tem sido constantemente revisitada com intenções e resultados que variam entre brilhantes e oportunistas, estimulantes e dispensáveis. O assédio e o consumo são vorazes, mas os discos do próprio Tom ficaram na geladeira. Aproveitando o gancho dos 50 anos da bossa nova, duas gravadoras, Universal e Warner, finalmente recolocam agora no mercado vários discos importantes gravados pelo compositor. Alguns privilegiam temas instrumentais sofisticados, que não figuram entre seus clássicos mais conhecidos, não têm o apelo popular da bossa nem foram alvo de regravações.A Universal vem com o pacote mais vistoso dentre os relançamentos, com 14 CDs. A caixa Brasileiro - Antonio Carlos Jobim (R$ 179,90) inclui, entre os oito CDs, cinco títulos originais dos mais notórios de sua discografia: Caymmi Visita Tom - E Leva Seus Filhos Nana, Dori e Danilo (1964), a trilha do filme Garota de Ipanema (1967), Matita Perê (1973), Elis & Tom (1974) e Edu & Tom - Tom & Edu (1981). Além destes, há três compilações irregulares, com repertório repetitivo: Tom Feminino (só com cantoras interpretando sua obra), Tom Masculino (com cantores e músicos) e Tom a Dois (com duplas, trios, quartetos e outros).Os demais saem para venda avulsa, dentro da série batizada de Bossa Nova 50 Aniversary Edition. Entre estes há outros de seus títulos mais importantes, como o instrumental Antonio Carlos Jobim - The Composer of ''Desafinado'', Plays (1963), brilhante álbum de estréia-solo. A série também inclui Wave (1967), Tide (1971), Passarim (1987) e Ella Abraça Jobim - Ella Fitzgerald Sings the Antonio Carlos Jobim Song Book (1980).Rio Revisited (1987) , como explicita o título, é revisionista, sem muito do charme original dos clássicos da bossa nova. É o registro de um show de Tom e banda no Wiltern Theatre, em Los Angeles, com participação de Gal Costa em Dindi, Wave e Corcovado . Gal continua até hoje a fazer mais do mesmo em cima de parte desse repertório. Seu álbum mais recente, gravado ao vivo em Nova York, está aí para não deixar dúvida.Os imprescindíveis The Composer..., Caymmi Visita Tom e Elis & Tom (leia abaixo) já foram relançados outras vezes em edições dignas de sua importância. A trilha de Garota de Ipanema só tinha saído em CD numa caixa dedicada a Vinicius de Moraes. Com arranjos de Luiz Eça e Eumir Deodato, o mimo, que foi apresentado na época como ''um painel da moderna música popular brasileira'', volta em melhor edição agora. Tom só aparece como autor de alguns temas.Além da bossa nova da faixa-título, em duas versões instrumentais, o disco tem Elis Regina em dueto com Chico Buarque numa marcha-rancho dele (Noite dos Mascarados); Chico de novo em Chorinho; Baden Powell, genial como sempre, na Ária Para se Morrer de Amor (de Vinicius de Moraes); o próprio Vinicius no igualmente matador Poema dos Olhos da Amada; Nara Leão (Lamento do Morro); Tamba Trio (Ela É Carioca), um encontro do Quarteto em Cy com o MPB-4 (Rancho das Namoradas). Todos na flor da idade. A maior curiosidade, porém, é Ronnie Von cantando Por Você, um iê-iê-iê de Francisco Enóe com letra de Vinicius. Estranho no ninho total, mas divertido.Gravado em Nova York, The Composer... é um apanhado da melhor produção de Tom na fase da bossa nova. O repertório inclui O Morro Não Tem Vez, Insensatez e Água de Beber, em belíssimos traços, e, naturalmente, Chega de Saudade, Desafinado e Garota de Ipanema. De tanto serem regravadas, estas últimas se desgastaram com o tempo, mas as versões instrumentais deste álbum caem bem hoje, como ontem e sempre.Com arranjos orquestrais, tendo o próprio Tom ao piano e ao violão, o álbum marcou o início de uma série de trabalhos em colaboração com o arranjador e maestro Claus Ogerman. Matita Perê e Wave são os melhores exemplares do aprofundamento dessa parceria, em que Tom combina com rara habilidade elementos do jazz, da música erudita e da tradição popular brasileira. Reunindo excertos da trilha do filme homônimo de Paulo Saraceni, a suíte Crônica da Casa Assassinada (de Matita Perê) é a pedra mais brilhante de uma obra singular, por seu alto grau de sofisticação. Tom também se firma como letrista em canções como Águas de Março e Ana Luíza.O baixista Ron Carter e o baterista Dom Um Romão são os destaques de Wave, que só tem uma faixa cantada, Lamento, com letra de Vinicius. Nas suingadas The Red Blouse e Captain Bacardi, Tom brinca com auto-referências inteligentes. Look to the Sky é de uma suavidade nostálgica e prazerosa como a de um entardecer de verão à beira-mar. Carter aparece de novo em Tide, no qual, tocando piano e violão, Tom começa revisitando Garota de Ipanema, Carinhoso (Pixinguinha/João de Barro), mas depois traz novidades como Tema Jazz (com a flauta de Hermeto Pascoal), Sue Ann e Remember. Os arranjos são de Eumir Deodato.Quando a divina Ella Fitzgerald (1917-1996) gravou seu disco de Jobim, entre setembro de 1980 e março de 1981, já trazia na bagagem o gabarito de ter contado a história da grande música americana por meio de song books históricos com as obras mais significativas de Cole Porter (1956), Rodgers & Hart (1957), Irving Berlin (1958), Duke Ellington (1958) e George & Ira Gerswhin (1959), entre outros. O Norman Granz daqueles álbuns antológicos também produziu este de Jobim, e considerou o resultado de igual nível estético de seus antecessores. Mas não é mesmo.Para dar o necessário molho brasileiro, além de contar com músicos do jazz como Joe Pass e Toots Thielemans, o disco teve a participação dos brasileiros Oscar Castro-Neves e Paulinho da Costa. Da extensa produção de Jobim, os grandes sucessos estão presentes, mas não se pode dizer que Bonita merece figurar entre suas canções fundamentais. Wave e Samba de Uma Nota Só também poderiam ser substituídas por composições superiores. O que não falta é obra-prima nas parcerias com Vinicius e Chico Buarque.Mas este não é o único problema do song book, que privilegia as canções com letras vertidas para o inglês - e quando Ella arrisca o português em Água de Beber a situação piora. Os arranjos sofrem com o efeito dos modismos sonoros da época, com algo de fusion e uma pasteurização tecnológica que soam bem mal hoje. Além do mais, da grande dama da canção, com a saúde um tanto debilitada, restavam delgados sinais daquele vigor interpretativo dos anos 50.Passarim foi o penúltimo álbum gravado por Tom, que então se fazia acompanhar pela Nova Banda, formada por instrumentistas e um coro feminino com gente das famílias Jobim, Morelenbaum e Caymmi. O álbum inclui Anos Dourados, Luíza e Tema de Amor de Gabriela, feitos para minissérie, novela e filme, respectivamente, Borzeguim e Passarim.A Warner promete para breve as reedições de Urubu e Terra Brasilis em formato digipack. O requintado Urubu (1976) é o álbum que tem Lígia, Correnteza e a sublime Valse, de Paulo Jobim, que foi rebatizada de Olho d''Água ao ganhar letra de Ronaldo Bastos, na versão de Milton Nascimento para Clube da Esquina 2 (1978). Em Terra Brasilis, lançado originalmente como álbum duplo em 1980, Tom mais uma vez contou com arranjos de Claus Ogerman para recriar 20 de seus clássicos. Embora nunca tenha sido um cantor maiúsculo, tinha lá seu charme como intérprete das próprias obras. E sempre brindava o ouvinte com inovações e variantes harmônicas, que fazem diferença.

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