Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Euclides da Cunha inaugurou, com Os Sertões, uma tradição brasileira de observar seu interior rural ou sertanejo, o chamado país "profundo", com seus dilemas amplos como suas vistas, seus personagens sofridos como seus ambientes. Não foi o primeiro; e seu estilo, que parece tanto evocar os cronistas portugueses e a retórica do Padre Vieira, não teve imitadores (ao menos convincentes, não). Mas a força dele, que tem a ver também com suas contradições - engenheiro militar positivista que às vezes soa como um poeta bíblico ou telúrico -, foi tal que não há outro marco para essa linhagem que vem até Francisco Dantas ou Milton Hatoum, passando por Graciliano Ramos, José Lins, o esquecido Mário Palmério e tantos mais. A literatura de Euclides foi muito mais que pioneira; foi civilizadora.Toda literatura precisa de bom número de autores que reajam à realidade de seu país, seja a natural seja a social ou, mais comumente, ambas. Eles não devem ser medidos apenas pelo acerto ou erro de suas "opiniões" sobre causas e desdobramentos desses fatos, mas sobretudo pelo modo - criativo, intenso, complexo - como os captaram e lhes deram uma vida que permanece mesmo quando o tema morre na pauta da sociedade. Em países do chamado Novo Mundo, ainda mais nos momentos de afirmação nacional do início do século 20, isso significou retratar paragens inexploradas, hiatos humanos nem sequer registrados. Pense em Juan Rulfo no México, John Steinbeck nos EUA, Rachel de Queiroz. Não à toa Vargas Llosa se inspira em Euclides e García Márquez fascina o Velho Mundo. E recentemente um Cormac McCarthy ou um Juan José Saer também fotografaram em claro-escuro os sertões das Américas.Nos grandes, o mérito é muito mais que o do registro; é ver nele o labirinto subterrâneo de implicações, de simbologias e ironias. O moderno não tem lugar para épicos no sentido estrito; não há heroísmo, triunfo linear, nem deve haver apenas a compaixão, que tanto se confunde com a comiseração. Arte não é se fingir de neutro para despertar a consciência culpada do público. Por mais que a mania sociológica da crítica literária brasileira insista, Graciliano Ramos não se limita, nem mesmo nas páginas aparentemente mais cruas de Vidas Secas, a descrever "objetivamente" uma triste conjuntura socioeconômica. Vê no sufocamento daquelas existências o sufocamento da existência; árida é, antes, nossa alma. Guimarães Rosa se queixou da carência de escritores urbanos brasileiros que não fiquem apenas na superfície dos costumes, agitada como um rio que, ao primeiro mergulho, se revela raso, ralo. São Paulo, a cidade, ainda não tem o que sertão mineiro teve em Rosa. Ou Nova York em Saul Bellow. Ou, claro, antes ainda, o Rio em Machado de Assis.Machado é grande exemplo do que estou tentando dizer aqui. Comparativamente, não é escritor que fica empilhando referências à geografia de sua cidade, que fica se detendo minuciosamente nos endereços onde seus personagens se movem. No entanto, se você quiser estudar a geografia do Rio do Segundo Reinado, em ninguém mais do que Machado vai encontrar o que procura. Aquele é seu mundo, absorvido por sua mente, recriado por sua linguagem; não é preciso pendurar placa em cada esquina, catalogar cada traçado. Bom escritor se conhece pelo que deixa de fora.Mas Euclides não era um ficcionista; era um misto de geógrafo, jornalista, antropólogo e ensaísta, um homem familiarizado com muitas disciplinas que tentou unificar em seus relatos das regiões onde passou. Como tal, se foi um pensador com os vícios de seu tempo e lugar - um crente no determinismo subdarwinista à moda da casa, no positivismo tingido de messianismo que os militares brasileiros se atribuíram -, por outro lançou questões muito importantes e atuais sobre as escolhas da nação. Uma delas foi sobre o lugar onde estou no momento, a Amazônia; a esta altura devo estar concluindo a mesma rota que ele fez no rio Purus em 1905.Ele quis fazer sobre a floresta e seus povos o mesmo que fez sobre a caatinga depois de cobrir a guerra de Canudos (1896-97). Esse "segundo livro vingador" se chamaria Um Paraíso Perdido, quase o mesmo título do poema de John Milton, só que com a diferença substancial do artigo "um". Trata-se da mistura tão característica de Euclides entre seu pessimismo - que ele dizia incurável - e seu idealismo, que, parafraseando seu estilo, ???exuda por todos os poros de sua escrita tortuosa e caudalosa como o Purus. Na travessia do Acre ele viu o abandono e a crueldade do processo brasileiro que já tinha visto em Canudos; viu também uma natureza magnífica, que sugeriu à sua sensibilidade grandiloquente um dever magnífico, o de desenvolvê-la com as armas do progresso industrial - um dever para o qual a sociedade brasileira não estava capacitada. E, pelo que andamos vendo em nossa expedição fluvial, ainda não está.Apesar das belas páginas de À Margem da História, Euclides não conseguiu realizar seu sonho de um livro mais maduro, menos "bárbaro" (sic) do que o anterior. Por que não conseguiu realizar Um Paraíso Perdido? Suspeito que não foi porque, adoecido com malária e tuberculose, tenha descoberto a relação de sua mulher com Dilermando, que terminaria matando Euclides num duelo em 1909. O que faltou ao livro foi o que Canudos tinha de sobra: uma narrativa, uma cadeia exasperante de fatos como a luta entre amotinados e soldados no teatro do semiárido. Não deixa de ser curioso que a Amazônia (as Amazônias, para ser mais exato) não tenha cabido nem na prosa poderosa de Euclides. Há profundezas que só as combinações do imprevisível permitem sondar.MINICONTOMuitos sonham que seriam um animal. Ele, não. Sonhou que era um bambu no meio do Parque do Ibirapuera. Que, flexível, se divertia com os assobios do vento e o farfalhar das folhas e, resistente, que sempre reencontrava o viço para crescer um gomo mais. No dia em que morresse, apodrecido e amarelado, cairia em lascas sobre o solo úmido, olharia para o céu azul entre as frestas dos seus companheiros mais novos e agradeceria por nunca ter desejado competir com ele. Quando acordou, ficou em dúvida se ainda crescia ou já esfarelava.POR QUE NÃO ME UFANOHá um tema central ao debate brasileiro que muitas vezes fica encoberto, como se a solução estivesse no mero passar das décadas e séculos. É o tema justamente do desenvolvimento regional, da melhora do IDH em regiões como a Amazônia e o semiárido. Este é muito mais populoso e enfrenta o problema crônico da falta de água. Como tem sido governado por oligarquias que só fazem perpetuar sua família política com a propriedade de muitas glebas de terra, meios de comunicação, clubes de futebol, etc., não consegue sair da situação por não ter infraestrutura e opinião pública consistentes. Cerca de 70% das pessoas mais pobres do Brasil se concentram nessa região. Não é com Sudenes, com autarquias que supõem que o Estado é dirigente da economia, em vez de entender o mercado e suas demandas para incentivá-lo, que se vai mexer em tal desigualdade.Mas aí entram outras questões. Programas de benefícios sociais, como bolsas, aposentadorias e auxílios, têm uma função tampão; servem para ajudar pessoas sem condição alguma e impedir que tirem a criançada das escolas para trabalhar. Por outro lado, estimulam a reprodução. A taxa de nascimentos por mãe é muito maior nesses lugares. Mais filhos significam mais dinheiro: Bolsa-Família, salário-maternidade, etc. Só que também são mais difíceis de criar de forma que estudem até pelo menos o ensino médio e tenham perspectivas maiores. Por todos os lugares do Brasil onde passei, esse é um problema evidente. Mas ocultado.Se quer um modelo, olhe para lugares como Petrolina (PE), ou para regiões do cerrado, ou mesmo para exemplos do meio rural do sul e sudeste. Ali onde o conhecimento entrou, por meio de escolas técnicas, instituições como Embrapa e acesso geral à informação, a diferença se construiu em poucas décadas. Os produtores aprenderam métodos novos e foram induzidos a comprar tecnologias modernas para que sua produtividade aumentasse e eles não se preocupassem apenas em plantar para comer. Tais exemplos deveriam ser levados a muito mais partes do Brasil. Aforismos sem juízoQuem não sabe, acredita. ''A literatura de Euclides da Cunha foi muito mais que pioneira. Foi civilizadora''''Muitos sonham que seriam um animal. Ele, não. Sonhou que era um bambu no meio do Parque do Ibirapuera''

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