De Palma e o horror da guerra

Redacted, filme-denúncia sobre presença dos EUA no Iraque, impressiona Veneza

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

Causou profunda impressão no público de Veneza a estréia mundial de Redacted, filme de Brian De Palma sobre a presença norte-americana no Iraque. No final da projeção, um silêncio tumular caiu sobre a platéia. Não se ouviu um aplauso. Não se ouviu ninguém conversar com ninguém. As pessoas foram saindo da sala, quietas, como se o peso do mundo tivesse caído sobre cada uma delas. Não se sabe ao certo se gostaram ou não, no sentido convencional do verbo. Sabe-se que o filme calou fundo e induz à reflexão, o que é sua ambição maior, segundo De Palma.E, de fato, Redacted é muito impressionante. A começar pela coragem política, mas também pela forma, com a utilização de vários materiais e recursos do documentário e do docudrama para reconstituir uma das tragédias pontuais daquela invasão: o caso do massacre de uma família de iraquianos por um grupo de soldados, que invadiram a casa, violentaram uma garota de 15 anos, depois a mataram e queimaram o corpo, e assassinaram o resto da família que havia presenciado a cena, mãe, irmãs, o avô. Um horror. Muito ainda terá de ser dito sobre esse filme especial, desde já, um dos mais fortes libelos contra a guerra em geral, e esta em particular, dos últimos anos.Em entrevista, De Palma disse que a forma foi determinada pelo próprio material, recolhido na internet, em blogs mantidos por soldados, vídeos colocados no YouTube, depoimentos online, imagens de câmeras de vigilância, etc. A eles se mescla a reconstituição dramática, com os longos planos-seqüência característicos do diretor. ''''Tentei mostrar, através do filme, como tudo o que se sabe sobre a guerra é construído e manipulado pelos meios de comunicações'''', disse De Palma. Daí o título, Redacted, que significa, entre outras coisas, a versão final de um material, previamente depurado pela censura.O filme é centrado sobre um pequeno grupo de soldados, estacionados em uma barreira militar em Bagdá. Sua missão é revistar tudo e todos que por ali passam, veículos e pessoas. Submetidos à pressão contínua, expressam seus sentimentos em relação aos iraquianos. São filmados em ação e na intimidade. O recurso ficcional para a existência dessas imagens vem de um dos soldados, que deseja registrar a guerra para, depois, com esse material, prestar seu exame para a escola de cinema que deseja freqüentar quando der baixa.Muito mais convencional, embora bem-feito, é o outro drama político americano presente em concurso, Michael Clayton, de Tony Gilroy com George Clooney no papel-título. Clooney é um empregado de multinacional encarregado de fazer o serviço sujo da empresa. Sua vida é complicada, tem dívidas de jogo, etc. Um tipo complexo. Que, no processo, irá se dar conta de onde e com quem está metido e tentará mudar as coisas, e a si mesmo. O filme, bem construído e menos esquemático do que parece à primeira vista, não escapa do onipresente tema americano da segunda chance, e abre uma fresta por onde se pode ver o poder acumulado pelas corporações nos últimos decênios. Um bom thriller político-comercial, um desses produtos em que Hollywood ousa criticar o ''''sistema'''' para mostrar que é independente. Ou seja, filme bem-intencionado, porém inócuo.Como sempre, Clooney fez a alegria das tietes italianas, que avançaram sobre ele no final da coletiva de imprensa. O ator é arroz-de-festa em Veneza. Adora a Itália, tem casa em Como e quase levou o Leão de Ouro com o belo filme que apresentou há dois anos, Boa Noite, e Boa Sorte, sobre o período macarthista.Se Michael Clayton é bem narrado, a mesma coisa dificilmente se pode dizer do primeiro italiano em concurso, Nessuna Qualitá agli Eroi (Nenhuma Qualidade aos Heróis), de Paolo Franchi. Um drama existencial em que um homem de negócios deprimido (Bruno Todeschini) vê sua vida virada pelo avesso ao conhecer um rapaz que parece saber muito de sua vida. A questão da paternidade é colocada de modo transversal e o clima angustiante, que envolve até a bela esposa do negociante (vivida pela francesa Irène Jacob), não chega a convencer. Não é fácil dar vida ao vazio existencial, dificuldade que fica mais visível do que nunca no ano da morte do mestre na matéria, Michelangelo Antonioni.

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