De olho na carreira de um mestre: Edu Lobo

Vento Bravo, recém-lançado, mostra por que ele é do time A da nossa MPB

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

O espectador do DVD Vento Bravo, recém-lançado pela Biscoito Fino, não tem apenas a oportunidade de conhecer um pouco da vida e do mundo interior de Edu Lobo. Descobre, também, a importância que o compositor teve - da qual jamais se deu conta - na formação musical e carreira de alguns de seus contemporâneos.O depoimento do parceiro Chico Buarque é bastante revelador. Ele conta que, depois do surgimento de Edu e suas composições com sabor nordestino (como Borandá, Arrastão e Reza, do primeiro disco, lançado em 1965 pela Elenco), descobriu que era possível fazer música sem que ela fosse bossa nova, estilo do qual se sentia escravo. ''''Depois do impacto do Baden (Powell), o grande impacto foi das músicas do Edu. Foi uma das coisas que me empurraram.''''Ivan Lins descreve assim o aparecimento do jovem carioca com (profundas) raízes pernambucanas: ''''Nós vínhamos de uma música de paz, flor, mar, azul, céu e começou a vir pancada. O trabalho do Edu talvez tenha sido o grande impacto.'''' Maria Bethânia, que ouviu Edu pela primeira vez na Bahia, derrete-se: ''''Eu me lembro perfeitamente de todos nós comentando a diferença da música do Edu. A quela coisa rara, pura, com assinatura.''''Bebeto Castilho, do Tamba Trio - para quem Edu chegou ''''pronto'''' à turma da bossa -, Wagner Tiso, Cristovão Bastos, Marília Medalha, Paulo Cesar Pinheiro, entre outros, derramam-se em elogios ao gênio de Edu. Eles e o homenageado relembram as parcerias, os companheiros que já partiram (Tom Jobim, Vinicius de Moraes e companhia), as canções, as festas memoráveis (em que não só se bebia, mas se trabalhava, é bom dizer).Em entrevista concedida no estúdio de sua casa, em São Conrado, na companhia das duas diretoras do DVD, as jornalistas Regina Zappa e Beatriz Thielmann, Edu abusou da modéstia. ''''Eu não tinha noção disso (de sua importância). É muito bom ouvir os depoimentos, foram lindos'''', disse.Ele lembrou que enveredou por um caminho à época inexplorado porque considerava que o território já estava ocupado por gente imbatível e mais experiente do que ele, como Tom, Vinicius, Baden e Carlos Lyra. ''''Eu era mais moço do que todo mundo, coisa que não acontece mais'''', brincou. ''''Era como se aquele fosse um esporte que eu não estava capacitado a jogar. Eu tinha 18, 19 anos, e nessa idade ninguém faz planejamento. É algo que vem da alma.''''O documentário de 80 minutos é aberto e fechado com belas imagens suas (a fotografia é de Walter Carvalho) em Recife, terra de seu pai, o compositor Fernando Lobo. Era lá que o menino Edu passava férias escolares.Durante o filme, ele fala da camaradagem que reinava entre os artistas nos anos 60, da enorme admiração por Tom, do carinho por Vinicius - que se tornou seu parceiro em Só me Fez Bem. Com o velho amigo Gianfrancesco Guarnieri (que viria a morrer em julho do ano passado, pouco depois da gravação), rememora, depois de anos sem vê-lo, Arena Conta Zumbi, de 1965. Ao fim, toca e canta com os três filhos, Bena, Bebel e Mariana, e a netinha Beatriz. O DVD traz ainda um show que Edu fez no (extinto) Mistura Fina, no Rio.No momento, ele não está fazendo ''''absolutamente nada''''. Quer gravar um disco, mas, para isso, precisa ficar em seu canto, compondo. Para tal, tem de ouvir muita música - atualmente, 90% do que passa por sua aparelhagem de som é de clássicos (Debussy, Ravel, Stravinski, Villa-Lobos). É uma forma de se inspirar. ''''A música nunca veio fácil pra mim. Nunca tive uma melodia me perseguindo. Provavelmente, não vou ter mais. Eu tenho que perseguir a música, tenho que procurar'''', explicou.

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