De novo as Olimpíadas

Com os jogos olímpicos chegam as questões que infestam a nossa consciência realista, que acredita em soluções definitivas e, pretendendo não ter recalques, é sempre perseguida pelos seus hóspedes não convidados. No caso o "político", a "economia" e o fato irrefutável que há países mais ricos e poderosos que outros. Num ensaio de 1987 (e retomado no livro A Bola Corre Mais Que os Homens), baseado nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, de 1984, discuto essa dialética entre o coletivo e o individual, o mundial e o local que os jogos salientam. Numa modernidade que ainda acasala mercado com políticos que "cuidam" do povo; odeia a competição e o sucesso e ama a hierarquia, os jogos - como todas as experiências sociais baseadas na proposta de construir um mundo governado pelas normas esportivas - não escapam das acusações reducionistas pelas quais, lá no fundo, tudo (arte, religião e, agora, o esporte) serve a alguma outra coisa. De fato, não é muito fácil num planeta assolado por conflitos encontrar o tal "espírito olímpico". Mas, como diria o Conselheiro Acácio, não é justamente para isso que existe essa metáfora idealizada na guerra, dramatizada pelos jogos?! O espírito olímpico não fala de abrir mão da vontade de vencer. O seu é o de competir sem ser exclusivamente possuído pela vitória a qualquer preço. Na guerra ou no terrorismo, o único objetivo é destruir o inimigo. No esporte, porém, os adversários não podem ser eliminados. Ao contrário da guerra, o confronto esportivo demanda o respeito pelo outro para que a vitória, advinda da competição, possa se legitimar. Começar e terminar com o outro é o centro do esporte. Na guerra, ocorre justamente o oposto: um lado engloba e destrói o outro. Esse ideal de preservar o adversário surge com força nos jogos. Neles, a presença explícita de respeitar as regras promove a consciência de um momento ideal a ser construído pelo esporte. Não fosse esse sonho, não estaríamos dizendo que tudo é, no fundo, grana ou poder! Se as amizades podem ser vistas como ligadas a motivos secretos; se as preces mais lacrimosas estariam de fato seduzindo os deuses; quem foi que disse que o altruísmo esportivo realmente existe num sistema que, por meio do esporte, vende automóveis, bebidas e outras coisas "inocentes" como, por exemplo, movimentos e regimes políticos? No advento das olimpíadas modernas, em Berlim, em 1936, tentou-se colocar o esporte a serviço do Estado nazista. Ali aconteceu a primeira tentativa de contaminação direta do esportivo pelo político. O discurso de abertura de Adolf Hitler, no qual ele salientava que "o esporte alemão tem apenas uma tarefa: o fortalecimento do caráter do povo alemão", e o filme Olympia, de Leni Riefenstahl são a prova viva da glorificação de uma perspectiva racista, numa competição capaz de revelar cabalmente a superioridade definitiva da "raça ariana". Mas o esporte, construído pelas improbabilidades da competição, arruinou o projeto totalitário. Jesse Owens, um atleta americano negro, parte de uma equipe de atletismo marcadamente negra para os padrões americanos da época, foi o grande herói olímpico, mostrando como tudo na vida social tem um lado oculto, imprevisto ou não planificado. Ele não somente ganhou quatro medalhas de ouro, mas estabeleceu um extraordinário recorde numa prova central de todos os jogos: a corrida dos 100 metros rasos. Owens era um dos sete filhos pobres de uma família de pretos nascidos no Alabama e criados em Cleveland, Ohio, numa América duramente segregada. Trabalhou como entregador e sapateiro, mas numa escola pública, teve a sorte encontrar um treinador sensível ao seu talento. Dedicado e devidamente treinado, esse menino que não podia entrar nos espaços excluídos para os negros de Ohio, tornou-se campeão nacional e mundial de corrida rasa e salto em distância. Não fosse a universalidade do sistema escolar americano, ainda que realizada dentro do terrível regime do "iguais, mas separados", Jesse Owens não teria sido descoberto. Não fosse a competição aberta, típica do mercado, sem cotas para negros, índios, marcianos ou brancos, ele não teria sido incluído no time olímpico; e se não fosse o espírito olímpico que manda competir ombro a ombro, igualitariamente, esse campeão não teria posto aquela pulga que até hoje incomoda os racistas e o sectários: o que conta mesmo é a competência; essa história de raça superior - esse papo de pai (e mãe) do povo; não passa de balela... Mas ainda há uma última reviravolta. Owens, que na sua democrática América vivia confinado por leis raciais, pois só podia freqüentar restaurantes, banheiros, escolas e clubes reservados "para negros", podia, na Berlim das hierárquicas nazistas e onde foi aclamado como herói olímpico, ir a restaurantes e bares durante os jogos! É claro que ele não foi cumprimentado por Hitler, mas tampouco foi recebido por Roosevelt, o presidente democrata do seu país! Digam-me, caros leitores, onde é que existem coisas puras, a não ser nos nossos valores e ideais? Nas regras (e nos sonhos) que, eventualmente, governam nossas vidas. Essas receitas que, justamente por serem ideais - como o tal "espírito olímpico" - têm que ser perseguidos em toda a disputa? Tanto quanto a sinceridade, o bom senso e a igualdade numa democracia?

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