De luto pela forma como a cultura é tratada hoje

O milionário português José (Joe) Berardo faz questão de que peças não saiam de Barra de São João

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

Paulo Pardal, o engenheiro de Niterói apaixonado pela arte popular brasileira, e Joe Berardo, o investidor português, nascido na África do Sul, que amealhou 40 mil obras e já emprestou peças a mais de 700 museus de todo o mundo, sempre tiveram a mesma motivação para incrementar suas coleções: comprar para preservar. Berardo avisa que, se encontrar coleções brasileiras como a de Pardal, está disposto a sacar o talão de cheque na hora. Ele não é um milionário qualquer, que gasta sem olhar o que está adquirindo. Segunda maior fortuna de Portugal, de acordo com a revista Forbes ( 500 milhões antes da crise que lhe fez perder uma parte), o comendador Berardo, de 64 anos, vive entre suas casas em Lisboa, Cintra e Ilha da Madeira, tem vinhedos no Canadá, Austrália e na Europa, além de hotéis, mas o que lhe dá prazer, de fato, é lidar com arte. É dono de um dos mais importantes conjuntos de arte contemporânea do planeta, presentes em mostras na Tate Gallery, em Londres, no Museu de Arte Moderna (MoMA) e no Guggenheim, em Nova York, mas não considera que, ao comprar um quadro ou escultura de um artista renomado, está fazendo um negócio. Seus herdeiros já sabem que, depois de sua morte, nada poderá ser vendido (criou uma associação para manter a unidade da coleção).Berardo gosta de contar a seguinte história: em 2001, viu pela TV os talibãs destruírem, no Afeganistão, estátuas gigantes de Buda, do século 5º. Uma delas, de 53 metros de altura, era o maior Buda do mundo. Arrasado, decidiu refazê-los, sob encomenda, na China, ao custo de milhões de euros. "Nunca vendi um quadro sequer. Há pessoas que vão jogar golfe; esse é meu hobby. Mas não tenho apego às obras. A arte não pertence a ninguém, senão à humanidade", contou o simpático e falante Berardo em visita ao Brasil (ele tem dois irmãos que vivem em São Paulo). O investidor, ex-banqueiro, fez sua fortuna na África recuperando minas de ouro desativadas. Onde quer que esteja, até mesmo na Praia de Copacabana, só anda de preto. Fundador do Museu Berardo, em Lisboa, com obras de artistas do século 20 e 21 "de mais de 70 correntes artísticas", como ensina seu portal na internet, ele diz que está de luto pela forma como a cultura é tratada no mundo. Fica contente por poder atuar no Brasil - é ele quem faz questão que a coleção Berardo/Pardal não saia de Barra de São João. "Se quisermos melhorar a vida das pessoas, temos que dar prioridade à cultura; não basta dar pão. Seria muito interessante ter um museu naquele lugar simples."

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