James Lisboa Leiloeiro
James Lisboa Leiloeiro

De Frank Stella a Tarsila do Amaral: vai começar novo leilão da massa falida do Banco Santos

Obras pertenciam ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira e lances inciais, fixados há 15 anos, estão abaixo do valor de mercado

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2020 | 05h00

Há quatro anos, a massa falida do Banco Santos conseguiu levantar no primeiro leilão de obras de arte da coleção do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira algo como R$ 11,8 milhões, valor bem superior ao esperado pelo leiloeiro Aloisio Cravo pelas 138 peças vendidas. É pouco perto do que deverá representar o megaleilão que vai durar dez noites a partir de 21 de setembro e será comandado por James Lisboa. Entre esse dia e 2 de outubro, Lisboa estará leiloando online 1.972 obras da coleção que pertenceu a Edemar Cid Ferreira, quase 200 por noite, um recorde até mesmo para o leiloeiro, há 42 anos no ramo e um dos profissionais mais competentes do mercado – só no leilão da falecida pintora Eleonore Koch (1928-2018), realizado há dois anos, ele conseguiu vender a totalidade dos lotes, catapultando os preços da pintora, hoje superiores a R$ 200 mil por tela.

No leilão da massa falida do Banco Santos, repleto de superastros da arte nacional e internacional – de Frank Stella a Jeff Koons, passando por David Hockney, Tunga e Tarsila do Amaral – a chance de encontrar obras históricas não é pequena. Lisboa exibe com justificável orgulho o esboço que Tarsila fez para sua icônica tela Operários, de 1933, e a mastodôntica pintura de Frank Stella (The Founding #6, 2004), de 16 metros, que exigiu a força de 12 homens para ser transportada. O lance inicial (R$ 3 milhões) é pequeno perto de seu valor real, assim como o do desenho de Tarsila (lance inicial de R$ 32 mil), de importância fundamental para o patrimônio artístico brasileiro. Ele foi o marco zero da tela Operários, que representa o ponto de virada da pintora para uma arte de caráter realista, após uma década de experiências modernistas. E revela sobretudo o engajamento social e político de uma artista nascida entre barões do café.

Comentando os baixos valores dos lances iniciais, James Lisboa lembra que eles foram fixados há 15 anos e não foram reajustados desde então. Uma escultura de Tunga (Primeiras Núpcias, de 1986) que usa uma barra de cobre, folhas de ouro e imãs, teve seu lance inicial fixado em R$ 46 mil, quando uma obra do mesmo porte do artista pernambucano, morto em 2016, hoje vale dez vezes esse valor. Uma coleção de oito monotipias da série A Criação do Mundo, de Mira Schendel (1919-1988), tem um lance inicial (de R$ 12 mil) muito inferior ao valor de mercado – cada uma dessas monotipias vale, no mínimo, R$ 40 mil. Parece natural que todas essas obras cheguem a um patamar razoável, distante desses defasados lances iniciais. Para se ter uma ideia, no leilão realizado há quatro anos da massa falida do Banco Santos, a obra mais cara vendida foi uma escultura de Brecheret (R$ 2,7 milhões, quase três vezes o seu lance inicial).

O leilão da massa falida do Banco Santos deveria ter sido realizado em março, mas foi adiado por causa da pandemia do novo coronavírus. Sem possibilidade de realizar leilões presenciais, James Lisboa tentou o formato online pela primeira vez em junho, aliando-se ao canal Arte 1 para divulgar os 150 lotes, vendendo só na primeira hora um terço das obras. Em agosto, passou de 60 lotes. Agora, em setembro, a expectativa é grande por causa dos preços defasados. “Por que num momento de retração as pessoas começaram a comprar online?”, pergunta Lisboa. E ele mesmo responde: “Porque toda a família está em isolamento social e um bom programa é participar de leilões, envolvendo, inclusive, os filhos”. Regiões do País que não têm galerias de arte apresentaram um índice de participação expressivo nas vendas pela internet – Lisboa apresenta uma sala lotada de obras vendidas para cidades do Norte e Nordeste do Brasil e até para os EUA.

Os EUA talvez sejam o destino de obras como a pantagruélica tela de Frank Stella (os preços do artista norte-americano no mercado externo variam entre US$ 5 milhões a US$ 15 milhões, valor pouco praticado por aqui). O primeiro dia do leilão do Banco Santos deverá privilegiar as pinturas (há telas de Eduardo Sued, entre outros), mas o forte do acervo formado pelo ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira é mesmo sua coleção de fotografias – tanto de nomes internacionais, como Steve McCurry e Bert Stern, como nacionais (de German Lorca a Thomas Farkas, passando por Mário Cravo Neto). Haverá também no leilão online uma curiosa coleção de objetos náuticos (globos, planetários, esferas armilares) e miniaturas de caravelas com lances iniciais bem superiores ao de uma escultura de Amilcar de Castro (lance inicial de R$ 9 mil) e que revelam o gosto eclético do banqueiro colecionador. 

Highlights da coleção de obras de arte de Edemar Cid Ferreira

Edemar Cid Ferreira, que dirigiu o Banco Santos, decretou falência fraudulenta em 2005. Por decisão judicial, os seus bens materiais, como imóveis e obras de arte, foram leiloados para a massa falida do Banco Santos. Entre as 1.972 obras que ficaram sob guarda do MAC-USP durante 14 anos e serão leiloadas por James Lisboa, que venceu o edital do leilão para venda das obras de arte, estão algumas preciosidades.

A primeira delas é uma série de fotografias do mestre surrealista Man Ray dos anos 1920 e 1930 (lance inicial de R$ 5 mil cada). Ao lado dele está uma coleção histórica do veterano fotógrafo German Lorca (lance inicial de R$ 2,5 mil), que abriga fotos clássicas como À Procura de Emprego (1951) e Aeroporto (1960). Entre os fotógrafos colecionados por Edemar Cid Ferreira estão Steve McCurry, autor da famosa foto da menina afegã de olhos verdes, registrada em 1985 e 2002 (cada uma com lance inicial de R$ 1.200).

Outro lote curioso é o das pinturas de chineses contemporâneos. Uma tela de Zhang Linhai de 2003 tem lance inicial fixado em R$ 80 mil, mesmo valor para outro óleo pintado em 2001 por Jiang Guo Fang. 

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