De como o cinema pode se tornar uma arma política

De importância social inegável, Garapa vai levantar antigas questões. A principal: qual a maneira "correta" de representar a pobreza, sem explorá-la ou - pior - estetizá-la. A objeção virá, sem dúvida, de algumas opções de José Padilha, em particular aquela pela fotografia em preto e branco, muitas vezes granulada, que sugere uma estética aparentada à do Cinema Novo. Seria, por assim dizer, um cacoete de filme de arte, ou pior, de obra de denúncia social.Essas discussões têm lá sua razão de ser, mesmo porque a abordagem de uma obra a partir do seu tema, ou dos propósitos bons ou maus do realizador, parece sempre bastante limitada. Impregnada de psicologismo, obriga o crítico a fazer uma hipotética visita à consciência do realizador para nela escavar suas intenções mais profundas. Não funciona. Temos o filme. O "texto" do filme, se o termo cabe. E esse é que tem de dizer a sua "verdade", passar o seu recado ou suas contradições. O resto são as interpretações possíveis, do crítico ou do público. Já as impressões causadas por Garapa são inequívocas. Salta desse documentário uma profunda sensação de mal-estar, e mesmo de indignação social. Como é possível que, em pleno século 21, tenhamos pessoas vivendo em tal condição? E aqui cabe um parêntese: estranho é o cinema. Porque cada um de nós, se não for muito alienado, sabe que não existem apenas as três famílias mostradas no filme vivendo em condições de subnutrição. Há milhares delas, incontáveis, milhões, aqui mesmo no Brasil. Aliás, bem contabilizadas pela ONU: são cerca de 12 milhões de brasileiros vivendo sob "risco nutricional", ou qualquer coisa que o valha, eufemismos para a fome pura e simples. Então, sabemos perfeitamente de tudo. Sabemos e não sabemos porque se trata de uma realidade mantida distante dos nossos olhos. Tem o cinema essa capacidade de aproximação, tanto em relação a um objeto do desejo quanto a algo indesejável, aquilo que não queremos saber ou ver. Cenas fortes e desagradáveis temos diariamente pela televisão. Mas a persistência dessas cenas, sua duração, no tempo (com perdão da redundância), é coisa de cinema. E é isso o que mais incomoda. Nessa dimensão, da linguagem, da duração, e mesmo do tamanho da tela, é que o cinema pode se tornar uma arma política. ServiçoGarapa. Cinesesc (326 lug.). Rua Augusta, 2.075, tel. 3087-0500. 6.ª, 21 h; sáb., 15 h. Grátis. Informações: www.etudoverdade.com.br

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