FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

De Castro Alves a Monteiro Lobato em quadrinhos

Desde 1980 em atividade, o quadrinista Laudo Ferreira fez várias adaptações clássicas e também trabalhos autorais

Matheus Mans, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2021 | 05h00

Você pode não reconhecer este nome, mas são grandes as chances de já ter visto algum traço ou personagem criado por Laudo Ferreira por aí. Quadrinista de mão cheia, já está no mercado desde os anos 1980. Criou um estilo próprio e marcante, com traços aquilinos, e, prestes a completar 40 anos de carreira, já embarcou em várias histórias, ideias e narrativas.

Adaptou Noel Rosa em Feitiço da Vila: A Poesia de Noel Rosa em Quadrinhos, assim como colocou o Clube da Esquina em uma HQ. Dos cinemas, adaptou À Meia-Noite Levarei Sua Alma, clássico de José Mojica Marins. Além, claro, das adaptações clássicas da literatura, que vão desde Auto da Barca do Inferno até os contos adultos de Monteiro Lobato. Fizeram sucesso, também, os trabalhos autorais, como a personagem Tianinha, além de aventuras em histórias folclóricas.

Ao ser questionado sobre esse caráter diverso, Laudo Ferreira chama a atenção: isso é uma característica do quadrinho brasileiro. “A diversidade de produção do artista brasileiro é uma marca nossa. Ele consegue fazer história de folclore, sobre a comunidade LGBT, de terror, de caubói, coisas que não fazem parte da nossa cultura”, diz. 

Neste momento de sua carreira, Laudo fica contente de falar sobre a coleção HQ Brasil, da Editora do Brasil. Em dois livros, deixa claro esse seu talento ao dar traço e cor às histórias de Monteiro Lobato e Castro Alves.

Ao invés de seguir pelo caminho óbvio, Laudo brinca com possibilidades. Primeiramente, em Os Faroleiros e Outros Contos de Monteiro Lobato, ele fez a seleção apenas da obra “adulta” do autor. São contos existencialistas e que até mesmo flertam com o suspense.

“Recebi um lote gigantesco de contos do Monteiro Lobato e fiz uma peneiragem”, conta Laudo ao Estadão. “Não tinha tanto contato com o texto adulto do autor e foi surpreendente. Ele usa um tipo de humor contra a sociedade. É um humor bem mordaz, que reflete a atualidade. Tem um frescor”.

Em O Navio Negreiro e Outros Cantos de Castro Alves, ele mostra mais de sua inventividade: ao invés de tomar para si a narrativa, Laudo coloca o próprio Alves nas páginas. Vemos o espanto do escritor ao entender o que acontece no mar. “Há uma história paralela ao poema, uma parte imagética. Por mais que o leitor não tenha essa percepção, espero que funcione como um videoclipe, na mistura de texto e imagem.” 

Para Laudo, essas adaptações são importantes para atingir outros públicos. É porta de entrada para o jovem leitor encontrar o caminho para o original ou refúgio de quem já gosta do material.

A própria HQ Brasil chega com um caráter educacional. “Não sou adepto de dar uma releitura pessoal, distorcendo a ideia original. Parto do princípio de que a história já é muito boa. O prazer está em trazer aquilo para o visual. O original já fala o que eu quero, mas em uma outra linguagem, em outra mídia”, explica. “A imagem é parceira do texto e ajuda a ver como essas histórias ainda são atuais”.

Laudo também está no trabalho de lançar Aymará, HQ feita em parceria com a filósofa Rita Foelker que conta a experiência dos autores com o xamanismo e o chá Ayahuasca. Na trama, uma jornalista passa por uma experiência espiritual, onde vê a necessidade de mudança depois do encontro com o seu mestre espiritual, Aymará.

Olhando todas essas possibilidades de antes, agora e no futuro de sua carreira, Laudo Ferreira comemora como o mercado está maduro no Brasil. “Venho de outra época. Fui em um evento de HQ que só tinha autor. A gente namorava com a gente mesmo. Hoje, temos uma grande diversidade de público”, afirma.

“Temos muitas editoras pequenas acontecendo e uma produção também muito grande. Se não fosse a pandemia, o mercado estaria em outro sistema.” l

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