De Cabul à Sérvia atrás do sucesso

A jornalista norueguesa Asne Seierstad fala do livro De Costas para o Mundo

Entrevista com

O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

A jornalista norueguesa Asne Seierstad, de 37 anos, ficou famosa quando lançou há cinco anos O Livreiro de Cabul, ainda hoje na lista de best sellers (mais de 3 milhões de cópias vendidas em todo o mundo). O livro provocou a reação do protagonista, o livreiro afegão Shah Muhammad Rais, que processou a autora e escreveu a própria versão da história(Eu Sou o Livreiro de Cabul, Bertrand Brasil, R$ 26), contestando as afirmações da jornalista, que o pintou como um tirano muçulmano disfarçado de intelectual e defensor da cultura. Antes de provocar o livreiro, porém, a autora fez outras reportagens sobre sociedades que vivem em permanente conflito religioso e étnico. Ela esteve na Chechênia, em Bagdá e Kosovo, trabalhando na cobertura de conflitos armados. Foi exatamente quando os albaneses invadiram as fronteiras da Macedônia e os bombardeios da Otan começaram que Asne pisou pela primeira vez na Sérvia. Fez três viagens, desde então, decidindo escrever um livro quando os sérvios perderam sua quarta guerra em oito anos. A última foi em 2004, quando lançou De Costas para o Mundo, seu primeiro livro, que só agora chega às livrarias brasileiras pela editora Record (400 págs., R$ 46). O livro é composto por 13 histórias individuais e uma familiar, coletadas durante o inverno de 2000. Por meio delas, Asne constrói um mosaico da sociedade sérvia, entrevistando desde partidários de Milosevic, nostálgicos da ditadura, até cantores de rock de nomes esdrúxulos como Rambo Amadeus, passando por religiosos ortodoxos, cambistas mafiosos, diretores de teatro corruptos e mulheres de criminosos de guerra. Sobre De Costas para o Mundo, Asne conversou, de Oslo, por telefone, com o Estado, negando que seja uma ''''viciada'''' em conflitos bélicos (ela é autora de 101 Dias em Bagdá, sobre o período em que esteve no Iraque, em 2003, durante a invasão americana). Mais que um livro sobre a desintegração da Iugoslávia e a emergência de cinco novos países , De Costas para o Mundo tenta entender, segundo a autora, o caldeirão étnico local, ''''uma espécie de musjkalitsa'''' (prato típico da Sérvia semelhante ao picadinho brasileiro, com carnes e legumes diversos picados e cozidos em azeite). ''''Quando se fala em sérvios, o mundo tende a pensar neles como nacionalistas enlouquecidos'''', observa a jornalista, justificando seus esforços para livrar o povo sérvio desse estigma. ''''Por ser uma sociedade dividida em permanente conflito, nem mesmo os sérvios conseguem enxergar uma saída, dando as costas para o mundo que os rejeita.'''' Haveria algum personagem, entre os entrevistados, que traduziria melhor o espírito sérvio? A autora diz que não. É da mistura de distintas personalidades que se pode entender como Milosevic foi eleito democraticamente, por que a maioria dos políticos sérvios se deixa seduzir pela corrupção ou as razões do avanço da criminalidade. ''''A Sérvia, hoje, é um país em que falta consenso'''', diz Asne, sugerindo que os sérvios nunca se livraram do fantasma do príncipe Lazar, que levou os sérvios à destruição, em 1389, antecipando em séculos a conduta autoritária de Milosevic, ao isolar a Sérvia da comunidade internacional. A segunda edição de seu livro, que já teve três revisões, acompanhou a queda de Milosevic até sua prisão, em 2001. Na terceira e definitiva (que é a brasileira), ela relata seu encontro com o primeiro-ministro Zoran Djindjic, do Partido Democrata, assassinado em 2003 quando entrava no palácio governamental, dando a entender que essa morte significou a rejeição sérvia às reformas e submissão aos ideólogos demagogos e políticos dementes. ''''Felizmente, os radicais nacionalistas, hoje, estão em minoria e não acredito que os sérvios sejam tão inspirados por velhas ditaduras, embora não consigam esquecer o passado.'''' Asne crê nos jovens que não compram essa ideologia nacionalista e procuram trabalho fora do país. ''''Ele querem tomar ar fresco, conhecer outras culturas, para fazer as reformas necessárias na Sérvia'''', diz. ''''As conseqüências psicológicas de uma guerra são mais dolorosas que as materiais'''', conclui, lembrando a observação do roqueiro Rambo Amadeus, que assim analisa a morte de Zoran Djindjic no livro: ''''Seu assassinato foi mais um testemunho de como nossa sociedade ficou doente na época de Milosevic.'''' Depois da Sérvia, o próximo alvo da norueguesa Asne Seierstad é a Rússia, tema do livro que está escrevendo. Um assunto um tanto incômodo para quem é filha de um ativista político marxista e de uma escritora feminista. Trecho Depois de Milosevic, a Sérvia recebeu Djindjic. Ele explodia de coragem e iniciativa e alegrava-se com o dia em que poderia pôr o seu antigo inimigo perante o tribunal. O professor de filosofia queria reconduzir a Sérvia para a Europa, reapresentá-la ao mundo. Atacou os antigos poderosos e suas ligações com a máfia, iniciou reformas no exército e no setor da saúde, pensou em renovar o ensino, a indústria e a agricultura. No fim de junho de 2001 seu sonho se concretizou - Milosevic estava a caminho do Tribunal Internacional de Haia.

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