Private Collection courtesy T. Shafrazi Gallery/ Estate of Jean-Michel Basquiat. Licensed by Artestar, New York./Courtesy of Museum of Fine Arts, Boston
Private Collection courtesy T. Shafrazi Gallery/ Estate of Jean-Michel Basquiat. Licensed by Artestar, New York./Courtesy of Museum of Fine Arts, Boston

De Basquiat a 'Pantera Negra': como o grafite de artistas de rua se tornou popular

Mostra traz novas considerações sobre as origens do hip-hop e do movimento 'pós-grafite', que viu os artistas de rua que tinham transformado a paisagem urbana de NY adaptarem seus trabalhos para exibição em galerias de luxo, bem como em videoclipes e na moda

Sebastian Smee, The Washington Post

06 de novembro de 2020 | 09h00

Writing the Future: Basquiat and the Hip-Hop Generation (Escrevendo o Futuro: Basquiat e a Geração Hip-Hop, em tradução livre), uma exposição brilhante no Museu de Belas Artes de Boston, revela a centralidade das artes visuais para os primórdios emocionantes do hip-hop. A mostra traz novas considerações a respeito das origens do hip-hop e do movimento "pós-grafite", que viu os artistas de rua que tinham transformado a paisagem urbana de Nova York adaptarem seus trabalhos para exibição em galerias de luxo, bem como em videoclipes e na moda.



O programa apresenta também textos sobre as ligações entre o hip-hop e o afrofuturismo, a filosofia estética que combina características culturais da diáspora africana com tecnologia futurística. O afrofuturismo existia bem antes do hip-hop, mas tornou-se vastamente conhecido com o filme da Marvel de 2018, Pantera Negra.

A cultura hip-hop foi descartada pelo mainstream como uma moda passageira quando surgiu na década de 1970. Em 2020, ninguém prestando atenção discutiria com a afirmação de que o hip-hop e o rap são os espaços escolhidos por inúmeros dos artistas criativos mais ambiciosos dos Estados Unidos. Writing the Future nos lembra que parte da energia criativa original assumiu forma visual.

Ela se concentra não apenas em Jean-Michel Basquiat, o mais conhecido dos artistas visuais, mas em uma dúzia de seus colegas, amigos e colaboradores, incluindo Lady Pink, Keith Haring, A-One, Fab 5 Freddy e o notável Rammellzee.

É uma exposição provocante e super divertida. Para chegar ao espaço subterrâneo do museu, você desce uma ampla escadaria até um vestíbulo que foi transformado em uma estação de metrô de Nova York um pouco estéril demais, preenchida com uma reprodução em tamanho real das laterais artisticamente pintadas com spray dos vagões do metrô.

Mais corajosa, glamorosa e cheia de emoção é a galeria projetada como uma festa dançante no centro da exposição. Apresenta fragmentos dos primeiros filmes sobre a cultura hip-hop, incluindo Wild Style de 1982, dirigido por Charlie Ahearn, bem como vídeos de Madonna e Blondie (Debbie Harry). O videoclipe do single Rapture do Blondie foi o primeiro videoclipe de rap exibido na MTV em 1981; apresentava Basquiat como DJ e Lee Quiñones e Fab 5 pintando murais com letras arredondadas.

 


Os ambientes finais da exposição, que nos conduzem a um mergulho nos murmúrios visionários, no desenho magistral e nas fantasias dos trajes afrofuturísticos de Rammellzee - em muitos aspectos, a verdadeira estrela da mostra - são alucinantes.

Os fãs de Basquiat devem amar a exposição. Nascido no Brooklyn, filho de pai haitiano e mãe de ascendência porto-riquenha, ele conquistou o mundo da arte de Nova York na década de 1980 antes de morrer de overdose de heroína aos 27 anos. Mas Writing the Future, organizado por Liz Munsell e Greg Tate, não é realmente uma exposição sobre Basquiat. Não há muitos trabalhos dele e apenas alguns o mostram em sua melhor forma.

No entanto, há mais nesta exposição do que apenas colocar Basquiat no contexto. É sobre um fenômeno maior - uma luta por visibilidade que se transformou em hipervisibilidade. Ela aborda um período-chave na criatividade negra e na cultura jovem urbana, um momento extenso muito pouco compreendido por uma cultura dominante que o relega à margem mesmo enquanto nada nas próprias condições que criou.

Muita coisa em relação a exposição é incerta ou não resolvida, o que explica sua vivacidade. E, claro, continua a ser controverso. Mas quer você veja a explosão de grafite nos vagões do metrô de Nova York na década de 1970 como uma expressão de exuberância criativa e resistência à opressão ou vandalismo de guerrilha (ou ambos), a exposição vai te deixar curioso em relação ao grafite, sua mudança para galerias de luxo (sucesso apenas parcial) e a tomada do hip-hop do mainstream cultural (um alvoroço completo).



Há muito talento visual em exibição, incluindo coisas impressionantes de Lady Pink (Sandra Fabara), que colaborou em pinturas em spray com a artista conceitual Jenny Holzer, e Kool Koor (Charles William Hargrove Jr.). Mas, embora o programa apresente de forma convincente o pós-grafite como um fenômeno cultural considerável, ele luta para argumentar que se trata de um espaço de excelência artística esquecido.

Basquiat e Rammellzee representam os polos gêmeos da exposição e suas fontes entrelaçadas de energia.

Quando Jay-Z, em Picasso, Baby, disse "I'm the new Jean-Michel, surrounded by Warhols" (Sou o novo Jean-Michel, cercado por Warhols, em tradução livre), ele estava se referindo, é claro, a Basquiat. Ele estava reivindicando uma linhagem que englobava não apenas a inovação criativa, mas o tipo de arrogância e pompa que impulsiona você das ruas desprivilegiadas para o centro da popularidade de massa e prestígio cultural.

Basquiat nunca "bombardeou" vagões de metrô. Mas ele ganhou notoriedade precoce como parte do SAMO, uma dupla (a outra metade era Al Diaz) que deixou tags epigramáticas nas ruas do Lower East Side de Manhattan entre 1977 e 1980.

"Escrever" foi apenas uma das influências que Basquiat aproveitou, como Tate deixa claro em seu ensaio de catálogo caracteristicamente maravilhoso. Jazz, boxe, o ambiente construído no Brooklyn, os West Indian Day Parades que Basquiat viu com seu pai haitiano e a arte moderna, que ele viu em visitas ao Museu de Arte Moderna com sua mãe, faziam parte da mistura.

Se Basquiat foi um grande sintetizador que "entrou no páreo para a coleção do museu", como Tate coloca, Rammellzee era um visionário, profundamente desconfiado da aceitação do mainstream. Ele "deu gravitas teóricas à escrita do grafite".



Rammellzee era do Queens. Passou a adolescência fazendo tags em trens de sua vizinhança em Far Rockaway. Ele desenvolveu um estilo de escrita que prolongava as serifas das letras em flechas ou vetores dinâmicos semelhantes a mísseis, tornando-as quase ilegíveis, exceto para os iniciados.

O visual futurista e militarista, tão essencial para Pantera Negra, era apenas parte do espírito da época para esses grafiteiros. "Somos generais do exército urbano", disse Fab 5 na abertura de um show pós-grafite na Galeria Sidney Janis em 1983. "Embaixadores da palavra", disse Rammellzee. Voltando aos músicos Sun Ra e George Clinton, o afrofuturismo apareceu no trabalho de artistas como John T. Biggers e em vários artistas pós-grafite em Writing the Future, incluindo Basquiat, Futura, Keith Haring e Fab 5 Freddy.

Como Sun Ra, Rammellzee tinha uma imaginação que adorava construir histórias alternativas, mundos alternativos. Ele via seu estilo de escrever no metrô como uma "ramificação caligráfica da escrita feita pelos monges góticos do século XVI", explica Tate, que continua, de modo hilário: "Poucos nova-iorquinos da época recuariam contra a noção de que o sistema de metrô da década de 1970 era um setor de Hades, mas quem sabia que abrigava o vodu quântico de uma seita gótica há muito extinta aguardando o novo comando de um exército de engenhosos e ferozes adolescentes urbanos armados com tinta spray e trens de dez vagões como tela? Quem mais, senão Rammellzee, poderia ter inventado um fabuloso mythos e ethos a partir desse conceito selvagem?"

A obra-prima da exposição de fazer perder cabeça é um desenho monumental de 12 painéis em caneta hidrográfica e marcador colorido que se estende horizontalmente ao longo da maior parte da parede, como um pergaminho japonês. Há muito dividido pelo artista em duas partes, o trabalho é visto aqui pela primeira vez desde 1983. Graficamente, sua sofisticação é imensa, alternando entre a tipografia plana e o ilusionismo 3-D. As cores também são fascinantes.

A placa na parede o descreve como "um resumo grandioso da história e do futuro do grafite", e suas letras pretendem "ser armas em uma guerra contra o controle autoritário das comunicações".



Se a cultura hip-hop - com sua poética militante de ruptura - emergiu do racismo, da privação de direitos e da exclusão cultural, que destino ela teria quando se tornasse a estrela não apenas da cidade, mas também de jovens ao redor do mundo?

A carreira e a recepção póstuma de Basquiat fornecem uma resposta. Rammellzee, por sua vez, acreditava que a escrita do grafite perdeu sua alma quando se mudou para as galerias e quando seus artistas pararam de tentar estabelecer seus próprios critérios de maestria e, em vez disso, caíram sob a influência de critérios "externos": "Falhamos com o que poderia ter sido 'nossa' cultura", disse ele.

O ponto é discutível com perspectiva atual. Você não pode traçar barreiras em torno da energia genuinamente criativa, nem pode se apossar de critérios e mantê-los exclusivamente para você, como Rammellzee sugere.

Mas você pode se perguntar, com ele, se a arte produzida pelos artistas pós-grafite perdeu algo quando foi transferida para telas e exposta em galerias chiques. O racismo persistente pode ser uma explicação para o porquê de tão pouco deste trabalho ter obtido o mesmo sucesso que o de Basquiat. Mas também pode ter a ver com o meio preferido - tinta spray, que tem seu fascínio, mas nenhuma das ricas possibilidades de textura ou translucidez da tinta a óleo e que tende a ser desejável pelo olhar - e a relativa escassez de artistas singulares operando por períodos prolongados nos mais altos níveis de ambição.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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