Dawkins, peregrino da evolução

Com tom narrativo, obra faz mais por Charles Darwin do que panfletos ateus

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

A demora de cinco anos entre a edição original e a brasileira de A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins, é um acidente que pode ser significativo, como uma mutação no DNA. Nesse espaço de tempo Dawkins se tornou ainda mais famoso, inclusive no Brasil, por seus livros polêmicos como Deus - Um Delírio, em que parece dizer que duvidar do ateísmo é obsoleto. Como 2009 é o ano de Darwin, em que se lembram os 200 anos de sua data de nascimento e os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, o lançamento desse livro de Dawkins - que vem ao Brasil para a Flip em julho - ajuda a esclarecer muita coisa.O título original do livro, muito melhor, é The Ancestor?s Tale, algo como O Conto do Ancestral; e o subtítulo poderia ser traduzido por Uma Peregrinação ao Alvorecer da Vida, em vez de Na Trilha dos Nossos Ancestrais. Soa muito poético? Não por acaso: a inspiração explícita de Dawkins foram Os Contos de Cantuária (The Canterbury Tales), de Chaucer, um dos clássicos fundadores da literatura inglesa, no fim do século 14. Como Chaucer ouvindo histórias de peregrinos ficcionais vindos de toda parte, Dawkins conta e comenta como as espécies foram se formando ou deformando ao longo da história natural.Esse método permite não só o prazer narrativo, com a excelente prosa de Dawkins mais perto do que nunca da oralidade, mas também uma demonstração de suas teses sobre a evolução mais persuasiva do que seus panfletos antipuritanos. O tecido de relatos envolve o leitor com a sensação de presenciar o processo evolutivo em casos particulares, concretos. Nesse sentido, está mais perto da técnica cumulativa de Darwin do que dos cortes generalistas de Huxley ou dos recentes lançamentos que relacionam evolução e estética ou economia; está mais perto do como do que do porquê. Daí a objeção ao grandiloquente título na edição brasileira, que é muito bem traduzida.Quando vemos como cachorros e gatos têm ancestral comum, ou aprendemos que o nado das baleias deriva da locomoção dos mamíferos e não do serpentear de répteis e peixes, ou somos informados de que o homem está mais perto de chimpanzés e bonobos (tanto de um como de outro) do que dos gorilas, ou lemos a suposição de que a audição do morcego capta comprimentos de ondas de luz como os que batizamos com cores, temos o entendimento sensível do mosaico evolutivo. Partilhamos com Dawkins - a exemplo do que já fazia seu rival Stephen Jay Gould em livros como O Polegar do Panda - um maravilhamento diante da elegante e elíptica aventura das espécies, com sua complexidade de ritmos e desdobramentos.Para quem acusa Darwin e seus herdeiros de tirar o "mistério" da natureza, de decretar a morte de Deus ou da bondade com a afirmação de que a vida terrena não surgiu em seis dias - e sim de um longo e intrincado processo de mudanças aleatórias que podem ou não implicar a sobrevivência de acordo com o ambiente em transformação onde acontecem -, livros assim são o melhor antídoto. "Minha objeção a crenças sobrenaturais", diz Dawkins, "é porque não fazem justiça à sublime grandiosidade do mundo real." Tal como a moralidade de Chaucer, a sua não é feita de certezas plenas sobre as implicações dos contos da fauna e flora. Sim, acredite - nem mesmo quando fala da espécie humana.Ao descrever o que o andar bípede significou, por exemplo, ele diz que há várias teorias para explicar seu surgimento, como as de que permitiu maior conforto corporal ou liberou as mãos para que o cérebro se desenvolvesse. Dawkins lembra, citando achados como o fóssil da ancestral Lucy, que primeiro o ser humano se tornou bípede e só depois o cérebro aumentou de tamanho. A consequência, de qualquer modo, é a mesma: a interação com o ambiente levou ao refinamento dos gestos por meio do controle mental - e daí às ferramentas, armas e escritas. O tom cauteloso se repete em muitos casos, como quando o autor de O Gene Egoísta lembra que a reprodução assexuada foi tão bem-sucedida para algumas espécies quanto (ainda bem) a sexuada para outras.É claro que o livro está longe de ser uma coleta de historietas sobre animais ou fungos, assim como Chaucer não se limitou a registrar causos pessoais. Dawkins põe cada conto num quadro maior, intelectual, em que debate assuntos como a crença de que as coisas são totalmente descontínuas apenas porque recebem nomes diferentes. Não existe uma família no passado em que um avô foi primata e o neto nasceu hominídeo; tais rupturas não foram visíveis porque são muito graduais e, além disso, ocorrem sobretudo no plano molecular. Nem toda característica externa de um indivíduo é traço evolutivo, mas "apenas aquelas que forem manifestações de sequências de DNA". E há genes inúteis ou falsos, que deixam vestígios e não efeitos importantes. No mundo darwiniano, nem tudo é linear e intencional. E isso é que o faz engrandecedor.

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