David Lynch reúne Paul McCartney e Ringo Starr

Com show beneficente em favor da meditação transcendental, cineasta promove, em Nova York, o segundo reencontro da dupla depois da separação dos Beatles

Livia Deodato e Rodrigo Brancatelli, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

06 de abril de 2009 | 00h00

Quem diria que a meditação transcendental poderia fazer tanta coisa... Para o cineasta David Lynch, a prática do "ohmmmmmmmmmmmmmmm" não só cura a depressão como ainda ajuda crianças e adolescentes a lidarem com seus medos, afastarem os pensamentos ruins, serem mais educados em casa e melhorarem seus rendimentos na escola. "Funciona mesmo", repete ele, como se fosse um convincente apresentador de televendas. Já para as 6 mil pessoas que lotaram na noite de sábado o Radio City Music Hall de Nova York, a tal da meditação transcendental também mostrou ter um outro poder, igualmente impressionante - o de reunir num mesmo palco duetos improváveis e magníficos, como o de Bettye LaVette & Moby, Donovan & Sheryl Crow, Eddie Vedder & Ben Harper e o reencontro dos beatles Paul McCartney & Ringo Starr.Chega a ser difícil acreditar, mas David Lynch de fato conseguiu que seus amigos do mundo musical abrissem uma brechinha em suas agendas apenas para comparecer gratuitamente no festival Change Begins Within ("a mudança começa dentro de você", em tradução livre), evento beneficente formatado para virar DVD e propagar as maravilhas da meditação transcendental. A intenção era "levantar fundos para ensinar um milhão de crianças a meditar e mudar o mundo dentro delas mesmas". Convenhamos que não chega a ser uma causa humanitária muito chamativa, como diminuir a fome na África ou acabar com a aids, vá la, mas mesmo com a crise americana os ingressos que custavam até R$ 20 mil acabaram se esgotando em exatos nove segundos.O festival começou às 19h40 com Angelo Badalamenti, pianista ítalo-americano que ajudou Lynch nas trilhas sonoras de Twin Peaks, Veludo Azul e Mulholland Drive. Poucos ouviram, já que a maioria ainda se acomodava na plateia do Radio City Music Hall. Logo depois vieram Bettye LaVette e Moby com Natural Blues, canção do produtor careca que na verdade não passa de um remix de uma melodia da década de 30 da cantora folk Vera Hall. LaVette, que vem ao Brasil em maio para o Bridgestone Music Festival, não precisou de mais de dez segundos para brilhar, enquanto um coral de crianças de uma escola pública americana dava a moldura perfeita para a sua voz rouca.Sheryl Crow parecia um tanto quanto deslocada com suas canções folk sem sal, mas acabou se saindo bem quando virou backing vocal do escocês Donovan. Quem realmente emocionou o inquieto público do Radio City Music Hall foi a dupla Eddie Vedder e Ben Harper, duas das vozes mais bonitas da música popular americana atual, quando entoou junta Under Pressure, do Queen. Com direito até a um falsete de Harper a la Freddie Mercury. Vedder, por sua vez, impressionou em sua apresentação solo ao sobrepor versos curtos, a capella, em diversas faixas mixadas ao vivo e colocados como camadas na música criada de improviso.Até Jerry Seinfeld apareceu, fazendo uma esquete cômica de oito minutos sobre casamentos, crise econômica e banheiros públicos. Mas o que todos queriam realmente saber era de Macca e Ringo - afinal, eles iriam ou não tocar juntos? Ringo entrou primeiro, piadista como sempre, e mandou It Don?t Come Easy, seu segundo single depois do rompimento dos Beatles. "Essa aqui é para o George Harrison", disse. "Ele me ajudou a escrever, eu tinha dois versos e um refrão, mas não tinha um fim. Sabe, eu sempre tive dificuldades em terminar uma música. Parecia o Bob Dylan, 89 versos e a música nunca termina... Bem, vou parar de falar, vou meditar lá na minha bateria." Com o backing vocal de luxo de Eddie Vedder e com Ben Harper na guitarra, Ringo ainda cantou Boys (cover do grupo feminino The Shirelles que virou seu primeiro vocal em um disco dos Beatles) e fechou com Yellow Submarine. Antes do grand finale, mais alguns videozinhos institucionais mostrando o encontro que os Beatles tiveram com o guru da meditação transcendental Maharishi Mahesh Yogi, em 1968, na Índia. "Maharishi passou seus conhecimentos para os Beatles, às pessoas, e isso agora vai ser levado para as crianças em situação de risco em escolas públicas de todo mundo", afirmou David Lynch. O cineasta só esqueceu de mencionar que os próprios Fab Four deixaram a residência de Maharishi depois de ouvirem falar que o guru teria tentado se aproveitar da atriz Mia Farrow (na música Sexy Sadie, que chegou a se chamar originalmente Maharishi, John Lennon dizia "O que você fez? Você fez todos de bobo"). Polêmicas deixadas no passado, Sir Paul McCartney entrou às 22h30 e emendou clássicos como Drive My Car, Got to Get You Into My Life, Let it Be, Lady Madonna, Blackbird, Band on the Run e Can?t Buy Me Love. Muitos fãs na plateia notavam entre uma música e outra: "Olha lá, tem outra bateria no palco... será que é de propósito?". A resposta veio alguns minutos depois. Sim, a meditação transcendental faz milagres - apenas pela segunda vez depois do fim dos Beatles, há 40 anos, Ringo e Paul estavam juntos no mesmo palco. "Senhoras e senhores, com vocês... Billy Shears", chamou Paul, trazendo Ringo para cantar With a Little Help From My Friends e tocar em Cosmically Conscious e I Saw Her Standing There. Deu tão certo que agora é esperar para alguém fazer logo um festival da ioga, do tai chi chuan, do shiatsu, do banho com lama...

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.