Dario Argento, bizarro exagerado

Imagens estapafúrdias, roteiro inverossímil, todo o diretor está presente em O Gato de Nove Caudas

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2009 | 00h00

Talvez a maior criação de Dario Argento não seja nenhum dos giallos (thrillers de mistério e suspense) que ele fez e lhe valeram a reputação, entre outras coisas, de ?Hitchcock italiano?. Assim ele era chamado, por volta de 1970, quando irrompeu num cinema italiano que já vivia o ocaso dos grandes autores - o triunvirato Luchino Visconti, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni - e buscava novas alternativas, no gênero dos giallos, para prosseguir após a derrocada, que parecia iminente, do spaghetti western. Argento surgiu com aqueles filmes de títulos esquisitos, evocando animais. O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas, Quatro Moscas no Veludo Cinza. Rapidamente virou cult - e o culto permanece até hoje, apesar daquilo que Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, considera ?incontestável exagero?. Justamente o exagero alimentou o mito de Argento, mas melhor do que seus filmes é a filha Asia, que radicalizou, na arte e na vida, a bizarrice do pai.Asia Argento interpretou - até para Dario - filmes que esculpiram uma persona também excessiva e transgressora. Não satisfeita em interpretar, dirigiu - e o filme, Scarlet Diva, desencadeou um culto maior ainda do que o de Dario. Tudo isso surge agora a propósito do lançamento de O Gato de Nove Caudas em DVD. A trama gira em torno de um repórter e um jornalista cego aposentado, que tentam resolver assassinatos. Os crimes estão ligados a experimentos feitos por uma indústria farmacêutica que realiza pesquisas secretas. Os dois, claro, viram alvos. O Gato é de 1971, interpretado por dois atores norte-americanos - Karl Malden e James Franciscus - e por uma bela francesa (Catherine Spaak) que brilhara na Itália, ao longo de toda a década anterior.Para entrar no universo de Dario Argentino talvez seja bom contextualizar a época. Dez anos antes, Alfred Hitchcock fizera Psicose e o cinema - de terror e suspense - nunca mais foi o mesmo após o assassinato de Marion Crane na ducha do Bates Motel. Ao longo de toda aquela década, não apenas o cinema mas o próprio comportamento mudou. Beatles, minissaia, pílula. A década de 1960 entrou para a história como aquela que mudou tudo. Dario Argento beneficiou-se do clima transgressor. Jean Tulard fala em imagens estapafúrdias e roteiros complicados para tentar explicar o que é um filme do diretor.A abertura de O Pássaro das Plumas de Cristal é antológica. Um escritor norte-americano, que faz turismo na Itália, testemunha um assassinato. Tentando ajudar a vítima, ele fica preso entre os vidros da vitrine do local do crime, uma galeria de arte. A mulher, desesperada, tenta alcançá-lo, mas o máximo que ele consegue é vê-la sangrar até morrer. Brian De Palma com certeza repassou todo Dario Argento e não seria de estranhar se sua referência sempre tenha sido Psicose filtrado pelo italiano. De volta ao Gato, a primeira coisa que o espectador tem de fazer é abrir mão de qualquer preocupação pela verossimilhança. Cada cena é mais barroca e pesada - no sentido literal de hardcore - que a anterior e, lá pelas tantas, você se pergunta até onde irá o exagero de Argento. Pois vai até o fim. É estilo. Argento parece um Hitchcock que esbalda o Id sem ligar para o moralismo dos estúdios que, às vezes, travava o mestre. ServiçoO Gato de Nove Caudas. Itália, 1971. Direção de Dario Argento. Cor, 90 min. Platina. R$ 19,90

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