Darín festeja o sucesso de seu noir

Ator está no Rio exibindo O Sinal, sua estréia como diretor; astro de Nove Rainhas nega que seja a cara do cinema argentino

O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2007 | 00h00

Ricardo Darín está feliz da vida. seu longa de estréia na direção, La Señal (O Sinal), que será distribuído no Brasil pela Buena Vista - ainda não tem data, mas vai passar na Mostra, em outubro -, estreou arrebentando na Argentina e fez 205 mil espectadores, com 64 cópias, em pouco mais de uma semana. É um número importante num mercado que é menor do que o do Brasil - menos salas, menos espectadores -, ainda mais que o filme é um noir, e o cinema argentino não tem mais tradição no gênero. ''''Tivemos um grande diretor, que fez filmes noir belíssimos nos anos 40, Hugo Fregonese, mas há tempos essa tradição se perdeu na Argentina'''', diz Darín.Pode ter-se perdido, mas agora está sendo reencontrada. Ricardo Darín está no Rio, onde seu filme terá hoje sessão de gala no festival. Ele não gosta muito quando se diz que tem a cara do cinema argentino - ou que o cinema argentino tem a cara dele. Darín desconversa. ''''Existem muitos outros atores, grandes atores.'''' Modesto, diz que tem tido sorte e estrelado filmes que fizeram sucesso no país e no exterior - O Filho da Noiva, Nove Rainhas, Clube da Lua, El Aura. Numa suíte do Hotel Sofitel, com vista para a praia de Copacabana, ele concedeu a seguinte entrevista:Como La Señal aconteceu em sua vida? Era um sonho virar diretor, e com um filme noir, ainda por cima?Já me haviam oferecido a oportunidade de dirigir, anteriormente, e eu sempre dizia não, porque sentia que ainda não estava pronto. Neste caso, não pude recusar. O filme era um projeto de meu amigo, Eduardo Mignone. Ele escreveu o romance e ia dirigir o filme. Trabalhamos juntos no projeto desde o início, porque ele me via desde logo no papel desse detetive durão, às voltas com uma mulher fatal. Mas Eduardo morreu faltando um mês para o início das filmagens. Eu estava tão familiarizado com o projeto que os produtores me propuseram que dirigisse, até como homenagem a ele. Pedi ajuda a outro amigo, o diretor de curtas Martin Hodara, e aqui estamos compartilhando a direção.Como foi fazer um noir na Argentina?Trata-se de um filme de gênero, e de um gênero muito específico, ao qual o espectador argentino não está acostumado, pelo menos numa produção nacional. O livro (e o roteiro) de Mignone já apontavam o caminho da história e dos personagens, mas este é um tipo de filme que depende muito do clima, do enquadramento, da veracidade dos ambientes, da música. Trabalhei muito no último no ano. A produção foi retardada um pouco para que me preparasse. Filmamos no primeiro semestre, o filme foi finalizado em junho e julho, fizemos o pré-lançamento e La Señal acaba de estrear na Argentina. Estou feliz com o resultado.O fato de haver virado diretor mudou alguma coisa na sua maneira de encarar o cinema?Tenho a impressão de que, se mudou alguma coisa, foi mais a minha maneira de ver o ofício de ator. Dirigir e atuar ao mesmo tempo era uma coisa complicada, mas percebi, em definitivo, a importância de estar em sintonia dentro da cena. Claro que já vinha fazendo isso há tempos. Fiz teatro e TV, muitas vezes em papéis cômicos. Foi só há 13 ou 14 anos que acho que virei um ator de cinema, num filme por sinal rodado parcialmente no Brasil. Viemos fazer a última cena de Perdido por Perdido, de Alberto Lecchin, aqui mesmo, no Rio. Foi ali que aprendi que ser ator de cinema exige uma disciplina particular. Você é parte de uma cena que possui uma freqüência exata. Um pouco a mais ou um pouco a menos pode estragá-la. O diretor é quem tem o olho para inserir a cena no filme como um todo. Desta vez eu era o meu diretor. Foi algo novo para mim.O filme desenvolve uma típica trama noir. O herói, por mais durão que seja, é enganado pela mulher fatal. Você não tinha medo de que o próprio código do gênero eliminasse o elemento surpresa no desfecho de La Señal?O espectador, com certeza, espera alguma coisa. Sabe que vai ser uma história de traição, mas acredito que o desfecho é mais radical do que o público espera. O sucesso do filme na Argentina me deixa tranqüilo quanto a isso.Você situa La Señal em 1952, quando a Argentina que acompanha a agonia e espera a morte da primeira-dama, Eva Duarte Perón. Por quê?Embora a trama de La Señal seja totalmente fictícia, esse fundo dá ao filme uma base real muito forte e ajuda a adensar os personagens. Até certo ponto, trata-se da crônica de uma morte anunciada. O que isso tem a ver com a nossa ficção? Creio que assinala o fim de uma época. Quando Evita, la madre de los descamisados, morreu, foi-se com ela um sonho de política social, de baseado na igualdade e na justiça. O próprio peronismo mudou, após a morte de Evita. Houve uma radicalização violenta no país, a favor e contra, e esta eu acho que foi uma tragédia que marcou a Argentina nas décadas seguintes. A ficção de La Señal tem um pé muito forte na realidade por causa de Evita.Você é o ator que dá uma cara ao cinema argentino atual.Por favor, não me supervalorize. Tenho muitos colegas talentosos e não fiz tantos filmes assim. Tive sorte de trabalhar em alguns que fizeram muito sucesso, mas não mais que os outros.Como certos atores americanos, você tem o que se chama de face esculpida na pedra. Você muda conforme o diretor, mas mantém um estilo muito sóbrio de atuar.Acho que isso tem a ver com minha origem. Fiz muita palhaçada, no teatro e na TV, antes de fixar essa imagem mais sóbria no cinema. Acho que meus personagens são bem diferentes. Os de Nove Rainhas e El Aura, que fiz com Fabián Bielinski, são antagônicos - um se constrói para fora, o outro para dentro. Acho que minha preferência, ou habilidade, nos últimos anos, tem sido criar esses personagens mais intimistas, sombrios.Crítica e público, no Brasil, gostam de opor o cinema argentino ao brasileiro. Dizem que as histórias de vocês são mais humanas, há mais preocupação com o roteiro.Tenho a mesma impressão do cinema brasileiro. Acho as histórias de vocês maravilhosas. Estou pensando agora em Central do Brasil. Quanto menor a história, mais é possível aprofundá-la. É o velho conceito de Tolstoi. Ser regional para se tornar universal. Não há por que opor nossas cinematografias. Há muita coisa comum entre elas.

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