Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Daniel Senise revisita 30 anos de trajetória com mostra em espaço dedicado à tecnologia

Exposição será inaugurada no Rio de Janeiro no dia 27 de agosto

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2015 | 04h00

RIO - Enquanto o cineasta Jean-Luc Godard toma o 3D em Adeus à Linguagem, seu novo filme em cartaz no Brasil, para questionar o cinema, o pintor carioca Daniel Senise calcula a distância da projeção de uma pequena imagem fotográfica em uma sala escura do Oi Futuro no Rio e instala holofotes na instituição para lidar, mais uma vez, com o “mistério” da pintura.

Há dois anos, ao ser convidado a conceber uma exposição para a instituição, localizada no bairro do Flamengo, o artista indagou-se sobre o que poderia realizar em “um museu que, em teoria, é de arte e tecnologia”. “Não que eu esteja em uma área de conforto, mas já tenho problemas suficientes para ter de pensar em vídeos e coisas que sempre vejo nesse lugar”, conta. Entretanto, Daniel Senise lançou-se ao desafio - e o resultado será a inauguração, em 27 de agosto, de Quase Aqui, mostra na qual o pintor apresentará trabalhos inéditos e promoverá uma surpreendente relação de suas criações com quatro espaços do centro cultural.

Entre o metafísico Giorgio Morandi (1890-1964), fiel, a vida inteira, às naturezas-mortas que pintou a partir de garrafas, e o experimental David Hockney (1937), que exibiu recentemente sua “iPad art”, Daniel Senise considera que sua exposição até 23 de outubro no Oi Futuro do Rio marcará “novos caminhos na mesma fazenda”. O artista da Geração 80 - que não usa pincéis desde “1988, 1989”, ressalta - revisita pouco mais de 30 anos de trajetória, amarra passado e presente e questiona o lugar da pintura e da memória construindo, de fato, a luz.

Depois de imprimir o piso de seus estúdios para realizar diversas operações pictóricas, Senise tritura agora Bíblias e Enciclopédias Britânicas em seu ateliê no Rio para confeccionar placas maciças de papel a serem compostas como quadros monocromáticos - peças que ele vai exibir, em setembro, na Galeria Silvia Cintra. Ao mesmo tempo, faz também experimentações com fita isolante para esboçar, sobre o vidro, uma estrutura de linhas que remetem a uma construção de ripas de madeira. O trabalho, que se relaciona às pinturas de temática arquitetônica criadas pelo carioca nos anos 2000, vai desembocar no painel de 3 m X 12 m que instalará na grande janela da Biblio-Tec do Oi Futuro, abrigada na entrada da instituição.

“A exposição tem um percurso, construímos um discurso”, afirma Alberto Saraiva, que assina a curadoria da mostra ao lado de Flavia Corpas. Começando pela menção às “marcantes estruturas” representadas em tantas telas de Senise, o visitante encaminha-se para uma galeria na qual estarão suspensas quatro obras iniciadas em 2011.

O conjunto pertence à série Quase Aqui (que dá título à exibição), formada por tampos de mesas usadas pelo artista e por seus assistentes e nas quais ele pinta, na área central de cada objeto, um retângulo “perfeitamente” branco. “Hierarquicamente, a figura está no centro rodeada pelo fundo, mas, nessas obras, ela é neutra, enquanto o fundo está vivo. Fala de presenças e é uma inversão da pintura, sobretudo, porque é um objeto também”, define Senise. Sua ação pictórica remete, ainda, à criação da “luz metafísica”, diz Saraiva - entretanto, o pintor vai explorar uma relação mais física do espectador com a luminosidade nas outras duas salas de sua individual.

Sensorial. No inédito site specific Caminhante, por exemplo, Daniel Senise inspira-se no óleo sobre tela Caminhante Sobre o Mar de Névoa (1818), do alemão Caspar David Friedrich (1774-1840), para retirar todas as paredes de drywall de um dos espaços expositivos do Oi Futuro e proporcionar ao espectador uma experiência sensorial e metafórica com a luz.

Além da claridade natural vinda das janelas da sala do centro cultural - pela primeira vez desobstruídas, mas revestidas com filtros -, holofotes colocados do lado de fora do edifício vão acentuar a intensidade da luminosidade no local.

“A maioria dos personagens das pinturas do Caspar David Friedrich está de costas para uma paisagem, são quase silhuetas”, explica Senise sobre a recorrência da referência ao artista em sua obra - assim como foram, no início dos anos 1990, os quadros do norte-americano James McNeill Whistler (1834-1903). De certa forma, assim, o visitante de sua contemporânea Caminhante é chamado a experimentar, tal a figura do quadro do pintor romântico alemão, a sensação de chegar ao topo de uma montanha e quase se cegar com a imensidão do que está à sua frente.

Já na também inédita Mundial, última obra de Quase Aqui, Senise apresentará apenas a projeção, à distância, de uma pequena fotografia em preto e branco (de seu quarto de infância) em um espaço escuro. Jogando com a percepção do espectador, o novo trabalho, “arte e tecnologia na veia”, brinca, é seu “comentário sobre a memória”. 

Inspiração

'Caminhante Sobre o Mar de Névoa' (1818), tela do pintor alemão Caspar David Friedrich abrigado no Kunsthalle de Hamburgo, na Alemanha, inspirou instalação inédita de Senise feita com luz

Livro

A carreira de Daniel Senise também é revista em novo livro que acompanha 'Quase Aqui'. Com textos de Alberto Saraiva, Flavia Corpas e Paulo Miyada, a edição do Oi Futuro com a editora Cosac Naify será lançada em abril de 2016

* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ORGANIZAÇÃO DA MOSTRA

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