Damien Hirst faz primeira mostra no País

Artista britânico tem carreira polêmica e bem-sucedida

Entrevista com

Damien Hirst

Maria Hirszman -Londres, Especial para O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2014 | 03h00

Fenômeno da arte contemporânea, Damien Hirst realiza sua primeira exposição no Brasil, mostrando a partir do dia 11 de novembro, na White Cube de São Paulo, uma série inédita intitulada Black Scalpel Cityscapes. São representações em grande escala de mapas aéreos de 17 cidades, desenhados pela sobreposição de centenas de instrumentos cirúrgicos e cortantes sobre uma densa camada de tinta preta, que se mantêm fiéis à imagem de rebeldia e violência associadas à sua produção, ao mesmo tempo que indicam novos caminhos de pesquisa na trajetória do artista. 

Desde que surgiu na cena artística, no final dos anos 1980, o artista britânico alimentou admiração e críticas, e manteve uma polêmica e extremamente bem-sucedida carreira, situando-se sempre numa espécie de fio da navalha, como deixa claro o artista em entrevista ao Estado.

Esse trabalho é, ao mesmo tempo, muito diferente e muito semelhante a algumas de suas obras anteriores? Por que decidiu mostrá-lo pela primeira vez no Brasil?

Foi uma decisão da galeria. Mas estou muito interessado, nunca estive no Brasil, apesar de ter conhecido vários colecionadores interessados em meu trabalho. Como não se trata de uma exposição de museu, achei que seria interessante mostrar algo novo. Quanto ao trabalho, acho que a ideia já estava no que fiz anos antes, mas de uma maneira diferente. Para mim, continua sendo uma obra sobre o corpo. Tudo é sobre o corpo. As veias são semelhantes às ruas nas cidades. E a pintura preta e densa se assemelha ao sangue. Os mapas expressam, ao mesmo tempo, esperança e negatividade. Acho que do mesmo jeito que há esperança, há pavor. Gosto disso. 

Você acha que mudou nestes mais de 25 anos?

Acho que sim. Todo dia, no trabalho, não me reconheço. A gente muda, mas fundamentalmente é o mesmo. Acredito que você deve ser fiel a si mesmo, ou, pelo menos, tentar ser. É isso que admiro num artista, fico olhando para tudo, para a soma de todo o passado. 

Mas você tenta criar diferentes imagens de você mesmo, não?

No fundo, acho que isso faz parte de mim. Lembro que, quando comecei a fazer as “Spot paintings”, cheguei a pensar em fazer apenas isso e deixar todo o resto de lado. Rapidamente conclui que nunca poderia fazer isso. Admiro quem consegue, mas sou lunático, tenho muitas ideias. Se há tantas coisas em questão, como conseguir concentrar numa só? Precisamos aceitar como nossa mente funciona. No meu caso, é como se eu fosse um monte de pessoas diferentes, sou como uma exposição coletiva, com diferentes artistas. Às vezes, no estúdio, me pergunto: quem são todas essas pessoas, o que está acontecendo? Não acho que seja claro isso. Eu penso borboletas. E penso moscas. Tudo vem junto. Eu gosto de contradições. 

Falando sobre esse trabalho, como ele nasceu? Há uma associação com a questão da guerra contemporânea e o uso dessas tecnologias “cirúrgicas” de ataque?

Estava voando, olhei para baixo e me perguntei: que lugar é esse? Olhei no meu telefone, descobri que era Milton Keynes (cidade planejada na Inglaterra) e me disse: vou fazer uma pintura sobre isso. Bisturis e lâminas são só padrões, desempenham o mesmo papel que as borboletas. Não pensei sobre a guerra, essas coisas.

Você escolheu cidades diferentes, como Londres, Paris, Moscou ou Rio. Elas são parecidas?

Acho que são bastante diferentes. No começo, estava buscando semelhanças, daí comecei a ver diferenças. Quis fazê-las visualmente atraentes, exatamente como uma pintura. Ao refazer isso com as lâminas de bisturi, faço com que você olhe novamente e veja coisas que nunca tinha visto antes. Um monte de gente, quando mostro na imagem pequena do meu telefone, diz: é uma fotografia! Mas são lâminas de bisturi. Isso me deixa animado. Funciona e não sei como. Suponho que também cause a sensação de uma invasão, porque as lâminas são usadas para invadir, assim como as pessoas usam os mapas para invadir outras pessoas e territórios. 

Você se vê como um artista conceitual?

Acho que, quando uma arte é boa, isso não importa. Não é necessário ficar colocando nomes. Penso que a arte sempre foi a mesma. É o mundo que muda. Se o mundo é complicado, a arte só reflete isso de certa maneira. 

O mundo hoje é mais simples? Ou mais difícil?

Não sei. Acho que é mais fácil fazer arte quando as coisas não estão indo bem. Não gosto de admitir isso, mas é verdade, é muito mais fácil quando todo mundo diz que seu trabalho é uma porcaria. No entanto, à medida em que a sociedade se torna mais complicada, a arte se torna mais complicada. A arte reflete a vida, mas a vida vem primeiro. Um monte de gente vai dizer que isso é démodé, mas é assim que penso. É difícil de definir o mundo hoje. Os políticos não conseguem fazê-lo, as pessoas não conseguem fazê-lo. Da mesma forma que é difícil fazer uma política que faça sentido hoje, é difícil encontrar uma forma de fazer arte que faça sentido. Acho que é porque o mundo hoje é multifacetado. Há tantas contradições. 

Você tem algum grande projeto - você sempre tem um grande projeto pela frente - ou está mais tranquilo, com a idade?

Estou sempre tentando seguir em frente. Agora estou trabalhando no meu catálogo raisonné, que é uma coisa grande, é bom olhar para trás, colocar as coisas juntas. Mas acho que estou, sim, num período mais quieto. Fui realmente muito ocupado por um longo tempo. Mas há tempos para agir e tempos para pensar, e estou mais pensando ultimamente. Há também o projeto do museu para exibir minha coleção, que ficará concluído em fevereiro do próximo ano. Compro muita coisa de outros artistas. Tenho entre duas e três mil peças.

Como se sente em relação às críticas violentas feitas por Robert Hughes ao seu trabalho?

Acho isso engraçado. Ele era uma espécie de herói quando eu era jovem. Seu livro O Choque do Novo me inspirou totalmente. Aí veio a notícia de que o que eu fazia era para ele uma porcaria. De qualquer forma, é bom. No começo, você acredita em tudo que seus pais te dizem e, num determinado, você manda eles pastarem e faz suas próprias coisas. Acho que para ele a questão era conseguir se manter atualizado e, de certa forma, o ameacei. Ele simplesmente perdeu o toque.

O que você pensa das comparações entre você e Andy Warhol?

Acho que o Warhol tornou fácil para os artistas de hoje lidarem com o dinheiro. Se ele não tivesse feito isso, acho que teria sido muito mais difícil para mim fazê-lo. Antes dele, havia uma conotação negativa falar sobre isso. Hoje é possível dizer: estou fazendo isso por dinheiro. Acho realmente que em arte as coisas estão sempre disfarçadas. Você sempre acha que sabe o que estou dizendo, mas estou me comunicando com todo mundo, com crentes e descrentes da mesma forma. Esse é o gatilho.

Você é um católico niilista?

Talvez. De certa forma, sou um cientista. Gosto de pensar dessa forma, algo lógico, mas minha crença em arte é religiosa. A arte substitui Deus para mim.

DAMIEN HIRST

White Cube. Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550, 4329.4474. 3ª a 6ª, 11 h/ 19 h; sáb., 11 h/ 17h. Grátis. Até 31/1. Abertura no dia 8/11, às 15 h, para convidados.

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