DaMatta faz balanço de perdas e de ganhos

Textos publicados no Caderno 2 estão em Crônicas da Vida e da Morte

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

O antropólogo Roberto DaMatta é, antes de tudo, um forte. Afinal, resiste bravamente às agruras sofridas também por boa parcela dos brasileiros, vítimas de doenças, injustiças, descaso governamental. A dor corrói, mas DaMatta não cede ainda à perda de mentores, professores, amigos e, principalmente, de entes queridos, como um irmão e o filho mais velho. É um balanço sobre perdas e ganhos que tratam os textos selecionados por ele para o livro Crônicas da Vida e da Morte (236 páginas, R$ 29,50), lançado hoje pela editora Rocco.Já publicadas em sua coluna semanal no Caderno 2, do Estado, e no jornal O Globo, as crônicas foram classificadas em três seções. A primeira, Vida e Morte, revela os momentos dolorosos passados por DaMatta, como a perda de um mentor intelectual, o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, conhecido principalmente pelos estudos sobre etnologia indígena. O estilo reverente cede espaço para a dor pungente, no texto em que se despede do filho, Rodrigo, comandante da Varig, morto em 2006. Mais que um adeus, uma forma de criticar a decadência que se espalha pelo serviço aéreo nacional, notadamente a derrocada da companhia aérea na qual trabalhava o filho.É nesse espaço ainda que DaMatta prega uma de suas tradicionais surpresas no leitor, ao tratar ainda da morte mas a partir dos famosos sete palmos de profundidade com que são enterrados os mortos. Uma forma de preparar o leitor para a seção seguinte, Sociedade Brasileira. Aqui, seu olhar arguto sobre nosso cotidiano comprova a existência ainda de duas classes, já identificadas antes por ele: a das pessoas (sujeitos que desfrutam de condições econômicas e relações sociais privilegiadas) e dos indivíduos, aqueles que precisam lutar para usufruir seus direitos.É particularmente indispensável a leitura da crônica Brasil de Todos os Santos, Pecados e Éticas, dividida em duas e que traz um belo pensamento sobre o despudor governamental no trato dos bens públicos, em especial recursos financeiros. Finalmente, a seção Crônicas do Dia a Dia traz temas leves, mas observados criticamente. Como o futebol, esporte no qual "nenhum brasileiro que se preze muda de time". Um contraste, observa, com os políticos que trocam facilmente de partido. DaMatta não desiste.

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