Da realidade à imaginação, uma visão sobre sua época

Impressões subjetivas descortinam o silêncio das palavras

Benjamin Abdala Junior, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

A trajetória literária de Lygia Fagundes Telles, desde o pós-guerra, permite conhecer algumas das inclinações e impasses que modularam o campo intelectual brasileiro. E também, ao lado da obra de outras escritoras, como veio a ocorrer, no País, a afirmação de produções literárias de autoria feminina. Situadas inicialmente à margem, suas produções contribuíram para a reconfiguração dos cânones literários tradicionais, ao lado de alguns prosadores igualmente fundamentais. Para nos fixarmos apenas nos anos de 1940, Lygia, com projetos artísticos bem diferenciados, poderia se ver enlaçada, em seu braço esquerdo, por uma Clarice Lispector, e, no direito, por um Guimarães Rosa.O conjunto da obra de Lygia releva a visão interior, subjetiva, enredada em imagens de mundo descontínuo, de silêncios, e de tentativas de recomposição de identidades fraturadas. Por meio de um viés feminino, sua obra aborda, assim, subjetividades contemporâneas, não restritas às fronteiras discursivas do mundo da mulher.Lygia Fagundes Telles pertence a uma geração de escritores preocupada com as questões políticas, em especial, da América Latina. Alguns vieram do jornalismo e de lá trouxeram a inclinação de se observar a realidade para transfigurá-la. Se os fatos tematizados ficcionalmente não ocorreram, poderiam ter ocorrido. Vê-se como uma "escritora engajada", do "Terceiro Mundo", de acordo com suas palavras. Nos tempos da ditadura militar, quando estava escrevendo As Meninas (1973), seu principal romance, aproximou-se dos jovens para melhor conhecer seus hábitos, sua linguagem. Recebeu, nessa ocasião, um documento de um torturado que veio a colocar nesse livro, a pedido do seu marido Paulo Emílio Sales Gomes. Sua residência estava próxima de um dos centros de tortura da capital paulista. Da informação à imaginação. Em relação a uma ação política mais explícita, ela integrou uma comissão de escritores que em 1976 procurou entregar ao ministro da Justiça um manifesto contra a censura aos livros (mais de 400 títulos de autores brasileiros e estrangeiros censurados).Preocupada com o seu tempo e as ideias que circulavam em seu campo intelectual, Lygia Fagundes Telles procura focalizar tensões por ela vivenciadas. Como Clarice Lispector, continua atenta para o registro da condição humana e seus desencontros. A leveza da forma como escreve acaba por destacar, em contraponto, aspectos enigmáticos da vida cotidiana e a petrificação das relações humanas. Aborda criticamente, assim, a sociedade brasileira, na particularidade paulista. Pela imaginação, o real e o fictício se misturam e as personagens não conseguem sair dos enquadramentos de seus papéis sociais. Imobilismo e uma inquieta introspecção.Fala e escrita se aproximam, assim, nos textos de Lygia, como se a escrita fosse configuração direta do que se pensa ou se sonha. Um efeito de realidade que torna bastante operacional sua adaptação para outros gêneros dramáticos. Particularmente importantes foram Ciranda de Pedra (1952), seu primeiro romance, que teve grande audiência na forma de telenovela. As Meninas tiveram versão cinematográfica. Por certo, a literatura ganhou muitos leitores com essas mediações. Benjamin Abdala Junior é professor de Estudos Comparados da Universidade de São Paulo, autor, entre outros, de Literatura: História e Política

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.