Da natureza das orquídeas

Com nome de flor resistente, Labiata, de Lenine, aborda questões ambientais e da intimidade humana

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

02 de outubro de 2008 | 00h00

Por ter lançado dois álbuns ao vivo na seqüência e uma trilha instrumental para dança (a de Breu, do Grupo Corpo), Lenine deixou em muitos a impressão de ter estacionado na garagem. Labiata (LadoB/Universal), que sai agora, marca sua volta ao habitual, seis anos depois do último álbum-solo de estúdio, Falange Canibal. No entanto, ele não considera Breu (2007) e In Cité (2004) como projetos paralelos, mas "de carreira", já que têm material inédito.Além de ser nome de uma espécie de orquídea, Labiata remete a "lábia e labuta", segundo o compositor. Essa compulsão por orquídeas vem de oito anos. "Foi um vírus que passou na minha vida", diz o compositor. "Isso deu um outro sentido à minha vida. Toda essa paixão, associei inconscientemente à música. O que me atraiu primeiro foi a beleza da flor. Num segundo momento foi a diversidade de espécies: são mais de 40 mil espalhadas pelo mundo", enumera."E em terceiro lugar, que acho que é o mais importante, é a resistência, a robustez, em contraponto com a delicadeza da flor. Então vi que essas coisas estão muito presentes no que faço", compara. "De alguma maneira tem a procura da beleza, a coisa de dialogar com vários universos e de ser resistente."A sonoridade que ele desenvolveu nos últimos trabalhos está presente aqui: o estilo de composição, o jeito pulsante de tocar o violão, reconhecível ao primeiro acorde, o pé acentuado no rock, a parceria com o guitarrista Jr. Tostoi, que também fez as programações eletrônicas e divide com ele a produção. A base é formada por Tostoi, Pantico Rocha (bateria) e Guila (baixo) e Lenine diz que aproveitou a experiência dos músicos que estão com ele há muitos anos para fazer o disco todo em conjunto. "Diferentemente dos outros discos de estúdio, em Labiata a gente trouxe a experiência do palco e essa urgência que veio do trabalho com dança. Em Breu vi pela primeira vez minha música de forma tridimensional."Há variações de climas e arranjos em participações do Quinteto da Paraíba (em Martelo Bigorna e Ciranda Praieira), Kassin (Samba e Leveza), China (ex-Sheik Tosado em Excesso Exceto), Pedro Luís e A Parede (A Mancha e É Fogo) e dos três filhos de Lenine (João Cavalcanti, Bruno Giorgi e Bernardo Pintentel), que fazem vocal em Continuação, que encerra o CD. "É um disco calculado", diz Lenine. "Com o tempo você adquire ferramentas de como fazer. O objetivo e o estímulo é que mudam."Além de letristas colaboradores de outros trabalhos - Braulio Tavares, Carlos Rennó, Lula Queiroga, Paulo Cesar Pinheiro, Dudu Falcão, Arnaldo Antunes -, Lenine assina uma parceria inédita com Chico Science, Samba e Leveza. Ele que nunca foi íntimo de Science (1966-1997), recebeu da irmã dele, Goretti, uns fragmentos de textos, que transformou em canção em homenagem a ela."Acho que mesmo agora não distanciei nem um pouquinho daquele início juvenil, de querer fazer uma coisa que soasse um pouco diferente, que fosse instigante para quem ouvisse, que propusesse outras saídas sonoras, que falasse de assuntos relevantes", diz Lenine. Entre esses temas pertinentes estão questões apocalípticas - o crescimento urbano desordenado e a tragédia anunciada pelo degelo dos pólos (Lá Vem a Cidade e É Fogo), a poluição de óleo no mar (A Mancha) - e existenciais, em Excesso Exceto e É o Que me Interessa (sobre a conduta madura de quem só se importa "em estar próximo de seus pares"), entre outras.Realizado dentro do programa Natura Musical, que "tem por missão estimular e difundir a música raiz-antena", é curioso que Labiata transite por essas paisagens naturais. "No fundo é tudo natureza. Mesmo quando falamos de uma questão ambiental, de um assunto mais geral ou do seu íntimo, como é o caso de É o Que me Interessa, estamos falando da natureza humana. O que permeia todo o disco é a questão da natureza e da intimidade", diz Lenine.Não que isso seja novidade em sua obra. Justamente por isso, há uma impressão de déjà vu em Labiata. A banda é coesa, os arranjos são potentes e os temas, perspicazes. Na sonoridade e na atitude, Lenine se mantém coerente, mas as canções não têm a consistência daquelas de Olho de Peixe (com Marcos Suzano, 1993) e O Dia em Que Faremos Contato (1997), seus melhores álbuns.

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