Da invasão das águas ao recomeço

Fotos narram a saga dos que saíram de suas casas para dar lugar a uma usina

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2008 | 00h00

Não é de hoje a fama dos mineiros como narradores de causos, histórias, lendas. Tanto na poesia como na prosa, seus contos, romances e invencionices nos acompanham há tempos. Por tudo isso, na fotografia não poderia ser diferente. Um exemplo disso é a exposição (acompanhada do lançamento do livro) Paisagem Submersa, dos mineiros João Castilho, Pedro David e Pedro Motta, que começa hoje na Galeria Luisa Strina. Na faixa dos 30 anos, mas já com bagagem considerável - João Castilho acaba de ganhar o prêmio Conrado Wessel 2007 na categoria ensaio fotográfico -, os três fotógrafos decidiram em 2002 contar a história dos habitantes de sete municípios no nordeste de Minas Gerais, da formação do lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, no leito do Jequitinhonha, bem como o processo de demolição de casas e a transferência de inúmeras famílias que, obrigadas a deixar o local, se mudaram para outras paragens, chegando inclusive a criar novos povoados. A saga de um grupo que, em busca da sobrevivência, deixa para trás o que conquistou, com os olhos voltados para uma nova criação. Mas ao contrário de contar essa história como um fato jornalístico, os três mineiros optaram, não por uma linguagem tradicional, mas por uma narrativa imagética, quase um realismo mágico, em que tentaram narrar não o que aconteceu, mas como perceberam essa saga, esse momento do desmontar, sair e recriar. Uma epopéia mitológica, quase uma fênix fotográfica. Um trabalho a seis olhos, mas sem perder, em nenhum momento, a autoria de cada um deles, a experiência pessoal dentro de um contexto comum aos três. Um ensaio coletivo, mas que em nenhum momento perdeu a característica autoral de cada um, ao contrário do coletivo paulista Cia. da Foto, que optou por derrubar - o que se lutou por anos - o reconhecimento autoral da imagem. Enquanto a Cia. da Foto opta por desconhecer esse direito - tanto faz o crédito Cia. da Foto como divulgação -, o coletivo mineiro se dá muito mais na construção da história e na edição do trabalho. Na exposição e no livro, editado pela Cosac Naify, as imagens dos três se misturam numa forma de dar ritmo à história que eles querem contar, um ritmo que em muito lembra uma partitura musical em que um acompanhamento mais tranqüilo nos é, de súbito, arrancado com uma foto mais contundente. Isso sem que se perca a característica ficcional e da construção de cada um. Características essas bastantes fortes. As imagens poéticas de João Castilho, as surreais de Pedro David, o preto-e-branco de Pedro Motta. O enfoque é no homem, no cotidiano, na sua aventura do desmanche, nas mudanças, na invasão das águas, nos pertences que, deixados para trás, se tornam memória tênue dessas famílias, no lago que invade, no recomeço. Esses momentos são recriados pela percepção dos três fotógrafos. Peter Burke, em seu livro O Que É História Cultural, ajuda-nos a entender a percepção do que vai da representação (e imagem é representação) à construção de uma idéia. Ou seja, quando nos apropriamos de um conhecimento, nós o reinventamos a partir de novos contextos e novas realidades. Ao representar um fato social, criamos um novo cotidiano. E é isso que se percebe nas imagens da exposição e do livro. Enxergamos ou vemos mediados pelo nosso conhecimento e pela nossa construção de mundo a partir das representações sociais que construímos. Os fotógrafos, ao contrário do que se imagina, poucas vezes estão interessados em registrar o mundo tal como ele se apresenta, estão muito mais voltados em expressar suas emoções a partir de determinados encontros com esse mundo. Os próprios autores afirmaram em entrevista a Alvaro Machado e publicada no site da editora que seu ensaio "não serve como ilustração para texto, ele é o próprio texto". PROJETO No mesmo dia e horário, a Galeria Luisa Strina também inaugura a mostra de Antonio Montadas Projeto. O artista catalão continua em sua investigação, ou melhor, indagação sobre o que é arte e quais os seus produtos. A mostra se articula em torno das interrogações ligadas ao processo, significado e realização de um projeto e às diferentes e possíveis leituras do mesmo. O interesse do artista multimídia sempre se voltou para os temas sociais, artísticos e políticos e suas relações com os espaços públicos e privados.

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