Da igreja ao inferninho, todas as vozes e os instrumentos

A cantora e pianista Carol Fran, o trompetista Leroy Jones, discípulo de Louis Armstrong, e o funk sulista agitam a jornada

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

Tirando o multi-instrumentista Kurt Brunus, quase um herói local (ano sim, ano sim ele volta a São Paulo), o Bourbon Street Fest deste ano está cheio de novidades. Uma delas é a vinda, pela primeira vez, do trombonista e cantor Glen David Andrews, um dos jovens talentos da música sulista que radicaliza a fusão com o moderno.Andrews, de 28 anos, acaba de lançar o disco Walking Through Heaven?s Gate, gravado numa igreja batista, com faixas de apelo gospel, como Jesus on the Main Line. Mas, em New Orleans, da igreja ao inferninho é só atravessar a rua - logo ali, na Bourbon Street, você vai ver belas moças fazendo a dança do poste na janela e vestindo peças menores que o lenço do seu avô. A música turbina todas as crenças.Na linha fina entre o soul e o blues, a novidade responde pelo nome de Carol Fran, pianista e cantora de Lafayette (Louisiana) que tem interessantes duos carreira afora, um deles uma longeva parceria com o guitarrista Clarence Hollimon (um antigo namorado que ela reencontrou na maturidade e com quem está casada). Carol, de 65 anos, é uma expoente do que se convencionou chamar "jump blues", e começou a carreira na Don Conway Orchestra.Em New Orleans, ainda uma garota, casou com o saxofonista Bob François, e abreviou o sobrenome de casada simplesmente para Fran. Nos anos 50, tornou hit uma canção no Sul americano, Emmitt Lee, que gravou para o selo de R&B Excelllo. Depois desse início, passou a acompanhar o lendário Guitar Slim como cantora de sua banda. Ficou com Slim até a morte deste, em 1959. Depois, acompanhou gente como Nappy Brown, Lee Dorsey, Joe Tex, entre ouros.O jovem trompetista Leroy Jones já esteve no Brasil, e retorna desta vez com um quinteto. Começou tocando também numa igreja batista, e em 1994 foi recrutado pelo cantor Harry Connick Jr. para tocar em sua big banda.Em 1997, Leroy gravou um belo disco-solo em homenagem à grande influência de todos os trompetistas de brios do mundo, Louis Armstrong. O álbum de Leroy, Props for Pops, contudo, não era apenas um trabalho reiterativo, tinha brilho próprio e foi muito bem aceito.Os amantes do órgão Hammond B3 vão ter um respeitável instrumentista nessa edição: o tecladista Joe Krown, que chega com os músicos com os quais gravou em 2007 o disco Old Friends (o guitarrista e cantor Brint Anderson e o baterista Michael Barras).Faltou o zydeco? Agora não falta mais. Estão escalados os formidáveis Louisina Sunspots do acordeonista Bruce "Sunpie" Barnes, que gravaram álbuns como Zydeco?s Got a Soul, que já diz tudo. Com um toque de música caribenha, o tradicional tocador de washboard (tábua de lavar roupa que se toca com uma faca de cozinha) no palco e um pique de carnaval baiano, o time do zydeco vem para esquentar qualquer frio paulistano.A 7ª edição do Bourbon Street Jazz Fest mostra uma grande capacidade de o evento reciclar-se continuamente. No ano passado, a maior atração era a banda do trompetista Irvin Mayfield, mas o espectro de festa também era mantido, com o zydeco e o funk de New Orleans (um estilo regional muito específico) um festival de gastronomia. O perfil, este ano, está mais prospectivo, misturando a tradição com a novidade.

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