Da arte de criar bons amálgamas com elementos díspares

Assim fizeram Kiss Bill e Appris par Corps, duas montagens internacionais da reta inicial do Cena Contemporânea em Brasília

Beth Néspoli, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

Toma-se signos da dança, do teatro, da acrobacia e cria-se outra linguagem. Esse foi aspecto em destaque entre os espetáculos estrangeiros no primeiro fim de semana do Cena Contemporânea, o Festival Internacional de Teatro de Brasília, que começou quarta e termina no domingo. Na programação brasileira, montagens como a paulistana Rainha(s), a adaptação dirigida por Cibele Forjaz da peça Mary Stuart, de Schiller e Inveja dos Anjos, do Grupo Armazém, do Rio. É o festival cumprindo a importante função de fazer circular o que de melhor se cria no País. Há ciclo de encontros em que dialogam participantes do evento: artistas, estudantes e interessados em conhecer melhor o processo de criação dos espetáculos. Amanhã, por exemplo, o elenco argentino da peça La Noche Canta sus Canciones fala sobre o método de trabalho de seu prestigiado diretor Daniel Veronese.

O citado amálgama, fruto da interação de diferentes elementos das artes cênicas, está na criação da montagem canadense Kiss Bill, integrada por um casal de atores - intérpretes de um cineasta e sua produtora atarefada - e cinco bailarinos de técnica impecável. O título faz referência ao filme Kill Bill, de Tarantino. Há momentos só de dança intercalados com diálogos do casal de atores calcados no mote do ''cineasta pressionado pela produtora a manter um estilo que deu certo''. Na primeira parte o grupo alcança intenso poder de comunicação ao se apropriar de clichês do cinema para recriá-los com brilho na linguagem da dança, às vezes com humor, como na cena em que cineasta e produtora ''se matam'' dezenas de vezes de diferentes formas.

Mas não se reduz à chave satírica a ambição de Kiss Bill. Há uma morte de fundo, que o grupo quer colocar em relevo: o embotamento da sensibilidade, uma espécie de morte ''afetiva'' da dupla, robotizados a serviço do produto vendável. Paradoxalmente, e infelizmente, quando a ''ninfa'' substitui a ''ninja'', ou seja, quando entra em cena a força feminina, supostamente criadora, o espetáculo desanda, perde potência. Criticar a indústria cultural no seu campo é sempre arriscado. Ao primeiro mobilizar e depois entediar Kiss Bill provocou em Brasília efeito oposto ao desejado: o interesse ficou para a parte da violência.

No outro extremo, o francês Appris par Corps prendeu a respiração do início ao fim e arrancou aplausos em cena aberta. Alexandre Fray e Fréderic Arsenault misturam elementos coreográficos e acrobáticos numa dança afetiva e viril, ora terna, ora violenta, em saltos perigosos e perfeitos na sua execução. Dançam quase todo o tempo em silêncio, a trilha, quando surge é incidental. A iluminação em toda a parte inicial é mantida no palco e na plateia, nada de efeitos pirotécnicos - tanto que os aplausos nos movimentos de alto risco foram cessando para só retornarem, intensos, ao fim.

Isso porque, apesar do virtuosismo, Appris não é feito para mera exibição de técnica. Aqueles dois homens que se tocam sem pudor em partes esquecidas do corpo em movimentos surpreendentes expressam muito e sem palavras. E provocam no espectador a consciência de que vivemos num mundo de mentes cansadas e corpos mortos. Uma boa provocação.

Uma montagem de Brasília, A Casa, dos Irmãos Guimarães, está entre as boas expectativas dessa última semana.

A repórter viajou a convite do Cena Contemporânea

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