Da afinação à interpretação, Meneses em estúdio

Estado acompanha com exclusividade primeira sessão de gravação do novo disco do violoncelista

João Luiz Sampaio, RIO, O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

"Você imaginava que músico falava tanta besteira assim?", pergunta Meneses entre uma mordida e outra no misto quente. É preciso reconhecer que a aura dos grandes artistas sugere em nosso imaginário impressão um pouco diferente, lances de inspiração, uma combinação quase mística entre os instrumentos e seus intérpretes, momentos musicais em que o tempo lá fora parece parar... Não, nada disso. Tudo começa, na verdade, com o acerto dos microfones. Os músicos então fazem um pequeno teste. E voltam à cabine de som para ouvir o resultado. "O cravo está forte demais", diz Rosana. "O solista, o violoncelo, mal dá para ouvir", emenda Kanji. Mais ajustes. "Melhorou, mas o microfone está muito perto do cello." A noite está apenas começando.Os técnicos arrastam os microfones, levantam, abaixam, trocam de aparelho. Quando o cravo está acertado, seu som vaza para o microfone do cello. Eles colocam um anteparo, mas ele bloqueia a visão de Rosana, que precisa estar atenta às mãos de Alberto Kanji, com quem divide o acompanhamento das sonatas. Voltamos ao cello. Kanji tem a sensação de que o violoncelo está soando muito "sharp". E a riqueza harmônica da música exige mais espaço para que o violoncelo soe. "E possa envolver", completa Meneses, abraçando o ar. Mais alguns testes e o problema é resolvido. Falta agora o violoncelo responsável pelo baixo contínuo. Eles acertam de primeira. "Para o que é, está mais do que bom", brinca Meneses. "Não faz muito esforço não, hein?!", continua, provocando riso, mas ouvindo com cuidado o trabalho dos técnicos e sugerindo ajustes. E agora? Como se sentem os músicos? "Para nós está bom." "E o que posso fazer para ficar sensacional?", pergunta o responsável pela mesa de gravação. Talvez trabalhar um pouco mais o som ambiente, a captação individual está boa, mas os músicos não soam em conjunto. O problema é resolvido com dois microfones ambientes. Nova prova, agora está perfeito.Os músicos atacam a sonata de Bocherini. Primeiro movimento, Largo. Quatro takes. Ricardo Kanji, na cabine, acompanha os músicos na partitura e faz anotações. Quando eles saem para ouvir o que fizeram até agora, dá sugestões. "Você está certo de que é isso que quer fazer aqui?", pergunta a Meneses. "Vocês podem ir um pouco mais rápido", diz a Rosana. De volta ao estúdio, Meneses pergunta: "Ricardo, mais algum comentário imbecil antes de continuarmos?" Kanji para, pensa e responde com a voz tranquila. "Não, não, é só você não fazer nenhuma bobagem." A equipe toda cai na gargalhada. Não, a gente não imaginava não.

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