Curiosas lembranças de 1993, ano do Girlie Show

Teve 'trem da alegria' para Londres e histeria na Rua Augusta

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

Como estará Madonna daqui a 15 anos? Imagina se uma senhorinha de 65 anos ainda fará malabarismos, correndo pra lá e pra cá no palco, como numa maratona da terceira idade? Quem vai estar interessado em sua música? Quantas Britneys e Justins serão capazes de superá-la no universo pop? Os MP3 players já serão peças de museu? Difícil de conceber a idéia? Pois 15 anos atrás também ninguém poderia supor o que a tecnologia que ela e seu público utilizam hoje transformaria de forma radical o modo de vida do planeta e o show biz. Em 1993, quando Madonna desembarcou com seu Girlie Show, ainda dentro do "século do progresso", tudo era muito diferente.O Brasil tinha recém-entrado na era do agora quase obsoleto CD - o primeiro disco gravado no formato digital aqui foi Curare, de Rosa Passos, em 1991. Os poucos que levavam câmeras fotográficas aos shows podiam ter o equipamento apreendido e devolvido "sem o respectivo filme". As pessoas nem eram tão histericamente obcecadas por fotografar e filmar tudo como nesta era digital. A ironia é que hoje Madonna "proíbe" que o público leve câmeras a seus shows.Bem, desprovida de telefones celulares e laptops - que para a maioria dos brasileiros ainda era coisa de ficção científica de um futuro distante como internet-, uma equipe de jornalistas e colunistas embarcou para Londres para ver o Girlie Show no estádio de Wembley. Além deste repórter, estavam Danuza Leão, Joyce Pascowitch, Arthur Xexéo, Zeca Camargo, Erika Palomino, um crítico de música erudita que reclamava de tudo, claro. Tinha também Mario Canivello, cicerone da trupe, e mais uma mulher chiquérrima que levou todo mundo aos restaurantes no SoHo.Contar isto tudo não é esnobismo. É só para ilustrar melhor os contrastes entre ontem e hoje. O "trem da alegria" (se não falha a memória) foi bancado pela Warner. Era o tempo das vacas gordas para as gravadoras, que hoje sangram as unhas tentando agarrar as últimas avencas da parede do poço. Fazia um frio cortante no outono de Londres, que no fim da década já amargava inéditas ondas de calor, para as quais não estava preparada. Era o tal aquecimento global batendo às portas.Na tarde antes do show, Canivello armou uma entrevista coletiva com o coreógrafo brasileiro que trabalhou naquela turnê com Madonna, com a maior facilidade. Hoje, o único brasuca na equipe foi o que fez o programa do show. Mas e para chegar a ele? Fulano de tal só "falaria" com a imprensa depois de consultar seu advogado, que por sua vez teria de contatar alguém num escalão superior na hierarquia "madônnica", etc. Então, acha que a diva aumentaria as rugas de preocupação com isso? Hahã...De volta a Londres, outubro de 1993. Feita a entrevista, visto o show, café da manhã num hotel bacana em South Kensington, era hora de escrever a reportagem. Nem máquina de escrever (lembra?) havia disponível. Recorremos então à velha e infalível dobradinha papel-e-caneta. Pronto o texto, como enviá-lo para cá? Só via fax (lembra?). Claro que, com várias pessoas tentando usar um único aparelho do hotel, a irritação de ambas as partes acabaria em arrogâncias do tipo "estou pagando". Resultado: embarcamos de volta ao Brasil sem saber se o fax tinha chegado ou não. Chegou, saiu. Todos os jornais babando ovo - não pela obrigação de falar bem só porque a viagem foi um luxo, mas porque o show foi bacana mesmo. Eram os tempos de Sex e Erotica. Hoje a mãe de Rocco, Lourdes e David volta com seu álbum mais fraco dos últimos tempos.Aqui chegando, começaram os preparativos para a vinda inédita da então apenas "rainha" do pop. Hoje o povo deu de chamar qualquer zinha de "deusa", então até os superlativos estão mais exarcebados. Madonna está mais poderosa e inacessível, arquimilionária. A histeria dos fãs já existia, mas parece que também cresceu à proporção da conta bancária dela. Antes de ser "endeusada", ela pôde até ser vista na janela de um hotel na Rua Augusta (olha onde ela foi ficar), que nem existe mais. Fizeram até uma festa (Será Que Ela Vem?) no Clube União Fraterna, esperando que ela realmente fosse. Não apareceu, claro, mas sua passagem por aqui foi marcante. Diz a lenda que até ela própria considerou o show do Maracanã o melhor da turnê. No mesmo fim de ano veio Michael Jackson. Um flop. Para azar dos dois, encerrando a temporada, o velho e bom beatle Paul McCartney veio, enfim, mostrar que música de verdade era com ele.

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