Curadoria soube garimpar a arte ainda não vista

Virtude foi trazer espetáculos de alta qualidade e, até agora, baixa circulação

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

18 de novembro de 2008 | 00h00

A vitalidade da cena mineira não chega a ser novidade para os paulistanos, mesmo para aqueles que jamais foram a Minas. Afinal, os palcos da cidade há muito recebem sistematicamente belos espetáculos de teatro e dança criados por grupos para além dos já tradicionais Corpo (de dança), Galpão (de teatro) e Giramundo (de bonecos). Só nos últimos cinco anos passaram pela cidade jovens companhias aplaudidas como o Espanca!, com os espetáculos Por Elise e Amores Surdos, Grupo 3 de Teatro, com A Serpente e Continente Negro, e a Cia. Luna Lunera, atualmente em cartaz no Sesc da Avenida Paulista com Aqueles Dois, premiada montagem baseada em conto de Caio Fernando Abreu.Sendo assim, no que diz respeito às artes cênicas, a grande virtude da mostra, idealizada pelos integrantes do Grupo 3 - a diretora e atriz Yara de Novaes e a atriz Débora Falabella e o produtor Gabriel Paiva - é a seleção de trabalhos de igual qualidade, porém até agora de menor visibilidade nacional. É o caso, por exemplo, de Rubros: Vestido - Bandeira - Batom, que tem texto de Adélia Nicolete - a título de curiosidade, mulher do dramaturgo Luis Alberto de Abreu - e direção de Rita Clemente. Apresentado no Fringe do Festival de Teatro de Curitiba em março deste ano, esse espetáculo sem dúvida esteve entre os melhores da mostra paralela, no mesmo ano em que o mineiro Aqueles Dois foi considerado o melhor da mostra oficial.Rubros aborda o universo feminino com sensibilidade, profundidade, humor e contundência raras nesse estilo de dramaturgia, que freqüentemente resvala num machismo às avessas - o assunto é, na verdade, o homem; ou na banalidade, não é incomum em comédias ?femininas? o tratamento de temas como o envelhecimento e o medo da morte a partir de diálogos superficiais, girando apenas em torno de cirurgias plásticas e consumo de cosméticos. Boa direção e duas atrizes excelentes, Ana Regis e Patrícia Reis, valorizam o melhor desse texto que escapa do senso comum ao trazer à tona, na relação de amizade entre duas mulheres, a trajetória de toda uma geração que viveu na pele radicais transformações de comportamento.A autora coloca em cena duas amigas que reagiram de formas diferentes às mudanças das últimas décadas, sobretudo à frustração de ver grandes ambições esquecidas. No atrito entre elas, o que vem à tona é algo que diz respeito a todos: o que restou, perdas e ganhos, após a queda das utopias coletivas e das conquistas da mulher no mundo do trabalho e do afeto.Vale ressaltar que Rita Clemente, a diretora de Rubros (e de Amores Surdos do grupo Espanca!) é também atriz de Dias Felizes - Suíte em 9 Movimentos, ousada releitura da peça homônima de Beckett, um concerto no qual se revela cantora de voz potente e assina a direção e concepção. Antes de mais nada, ao trocar um monte de terra por um figurino justo, ela consegue quebrar a rígida indicação textual de Beckett - a personagem Winnie deve estar enterrada primeiro até a cintura, depois até o pescoço - sem trair a idéia de imobilidade e finitude que funda essa imobilidade. E, a partir daí, constrói uma performance potente sem perda do humor e da curva dramática ascendente do original.A Cia. Clara é outro grupo mineiro que chamou atenção no Fringe de Curitiba, há cerca de cinco anos, com seu espetáculo de estréia, Coisas Invisíveis. De lá para cá, os integrantes abriram uma sede própria, equipada com uma aconchegante sala, onde promovem encontros para reflexão, criam e apresentam seus espetáculos. O grupo já tem algumas marcas registradas, como a música executada ao vivo em cena e um frescor juvenil tanto na atuação como nos temas. Características presentes em Alguns Leões Falam, montagem que tem texto e direção de Anderson Aníbal e retrata a vida de três amigos dos 3 aos 37 anos.Fundada em 1994 por Catin Nardi, a Cia. Navegante apresenta diferentes estilos de teatro de bonecos, desde um cortejo até um espetáculo de dois minutos dentro de uma caixa, na linha das criações do paulistano Caixa de Imagens. Na vasta programação há ainda contadores de histórias e espetáculos de rua. Fique ligado.

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