Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Curadores pedem que Guggenheim conserte a cultura que 'permite o racismo'

Em carta, eles pedem ao museu para 'acabar com a cultura de favoritismos, silenciamentos e represálias' e também 'rever as práticas de recrutamento, assegurando a contratação de curadores não-brancos'

Robin Pogrebin, The New York Times

24 de junho de 2020 | 16h00

Uma carta assinada pelo Departamento de Curadoria do museu Guggenheim foi enviada na segunda-feira, 22, para a direção da instituição exigindo reformas imediatas e abrangentes no que descreveu como “um ambiente de trabalho desigual que permite o racismo, a supremacia branca e outras práticas discriminatórias”.

“Enviamos esta carta para expressar preocupação com nossa instituição que necessita urgentemente de uma reforma”, diz a carta endereçada a Richard Armstrong, diretor do museu, Elizabeth Duggal, vice-diretora e encarregada do departamento de operações da instituição, a conselheira Sarah G. Austrian e ainda Nancy Spector, diretora artística do museu.

A carta foi enviada num momento em que as instituições culturais vêm sendo acusadas pelos críticos de perpetuarem o racismo estrutural. Em meio aos protestos desencadeados pela morte de George Floyd, os museus começam a analisar mais seriamente questões de equidade no caso das suas contratações, governança, exposições e aquisições de obras de arte.

A carta não traz assinaturas individuais porque os curadores temem retaliações.

Em comunicado, Armstrong confirmou o recebimento da carta em que os curadores “delineiam pedidos de reformas de modo a assegurar que os processos decisórios do departamento sejam mais coletivos, transparentes e responsáveis”.

“Nossa equipe de curadores é essencial para o Guggenheim e a estamos ouvindo”, disse ele em comunicado. “Suas demandas por mudanças constitui uma oportunidade para nos engajarmos num diálogo positivo com o fim de nos tornarmos uma organização diversificada, equânime e acolhedora para todos”, disse ele.

Armstrong já começou a conversar com alguns dos 22 curadores do museu após receber a carta. Segundo a porta-voz Sarah Eaton, a diretora artística Nancy Spector decidiu tirar uma licença de três meses a partir de primeiro de julho, mas não se sabe se sua decisão tem relação com a carta.

No domingo, Troy Conrad Therrien, curador de arquitetura e iniciativas digitais do museu, também enviou carta à direção do museu em que anunciou seus planos de não mais assumir a responsabilidade pelo que qualificou como sua cumplicidade com “uma cultura institucional que tem sistematicamente marginalizado muitas pessoas há muito tempo”.

“Está na hora de muitos de nós, que nos beneficiamos desse sistema falho quando assumimos posições de liderança, abrirmos espaço para aqueles que podem representar de modo mais pleno a equanimidade, o que não é mais algo necessário, mas urgente”, disse ele.

O museu não se manifestou ainda sobre a decisão de Therrien de renunciar ao posto.

O Guggenheim, que atrai cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano, tem um orçamento de US$ 60 milhões e uma dotação de US$ 90 milhões. Dos 276 funcionários trabalhando em tempo integral, 26 são negros, 24 são latinos e 20 asiáticos. E dos 25 membros do conselho de administração, 23 são brancos.

Em sua carta, os curadores pedem ao museu para “acabar com a cultura de favoritismos, silenciamentos e represálias” e também “rever as práticas de recrutamento, assegurando a contratação de curadores não-brancos, além de corrigir as práticas no tocante às coleções e exposições do museu, focadas em artistas homens e brancos”.

Outra demanda é para o museu encarregar uma investigação independente no caso da exposição no ano passado do pintor Basquiat e a curadora convidada da mostra, a historiadora de arte Chaédria LaBouvier.

A carta acompanha os passos de uma Carta Aberta para as Instituições Culturais da Cidade de Nova York, de 20 de junho, publicada por uma coalizão de funcionários antigos e atuais - e seus apoiadores – do Metropolitan Museum of Art, o Metropolitan Opera, O Museu de Arte Moderna da cidade e outras instituições culturais.

“Não precisamos de mais pesquisas, grupos de afinidade, painéis ou comissões e outras tentativas vazias para ocultar o racismo”, diz a carta. “Escrevemos a vocês para expressar nossa indignação e descontentamento com a exploração constante e o tratamento injusto das pessoas negras e mulatas nessas instituições culturais”.

A carta dos curadores do Guggenheim faz referência ao tratamento de LaBouvier, que é negra e que não foi convidada para participar do painel de discussão sobre Basquiat com outros estudiosos, incluindo alguns que ela, como curadora da mostra, havia selecionado para o catálogo da exposição.

LaBouvier, no entanto, esteve presente no debate e, da plateia, acusou o Guggenheim de esnobá-la e minar seu papel como curadora da exposição Basquiat’s Defacement: The Untold History. Ao The New York Times, ela disse ter sido excluída das tomadas de decisão sobre como a exposição foi apresentada.

Alguns meses depois, o museu contratou Ashley James, a primeira curadora negra trabalhando em tempo integral nos 80 anos de história do Guggenheim.

No início deste mês, LaBouvier postou uma mensagem no Twitter que chamou muita atenção: “Trabalhar no Guggenheim com Nancy Spector e a liderança foi a experiência profissional mais racista em minha vida”, escreveu.

 


Em um artigo na revista Essence, este mês, o museu respondeu às acusações de LaBouvier. “A exposição foi um dos primeiros esforços programáticos do museu para confrontar seu próprio papel no âmbito das injustiças em nosso país, algo em que continuamos a trabalhar com um exame crítico dos preconceitos inerentes no nosso ambiente de trabalho e em nossa história”.

Mas os membros da curadoria não concordaram com a avaliação. À sua carta publicada na segunda-feira foi anexada uma lista de comentários anônimos reunidos depois de uma mesa redonda dos funcionários realizada este mês pelo departamento de recursos humanos do museu. Vários curadores manifestaram desconforto com o tratamento dado a LaBouvier.

“Embora muitos de nós vimos nossas próprias experiências refletidas no mau tratamento dado a ela, não nos manifestamos e fomos cúmplices em nosso silêncio”, uma pessoa comentou. “Só poderemos avançar com credibilidade quando oferecermos a ela, publicamente, nossas desculpas sinceras”. / Tradução de Terezinha Martino

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