''Culturas musicais latinas poderiam dialogar mais''

Gustavo Santaolalla, idealizador do projeto, fala da união entre tango e samba

, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Gustavo Santaolalla conversa com o repórter do Estado, pelo telefone, desde sua fazenda em Mendoza. Cidade situada aos pés da Cordilheira dos Andes e lugar de passagem para o Chile, Mendoza é o principal centro produtor de vinho da Argentina e Santaolalla, como Francis Ford Coppola, é vitivinicultor. "Produzir o próprio vinho é uma dádiva dos deuses", ele diz. Café dos Maestros é a concretização de um sonho de 25 anos. No começo dos anos 80, Santaolalla desenvolveu um projeto de mapear a produção musical argentina. Ele realmente viajou, e documentou-se, mas ficara faltando, por falta de recursos, a música de Buenos Aires, o tango.Café dos Maestros é agora a dívida que ele paga consigo mesmo e com a música de seu país. Talvez por terem trabalhado juntos, Santaolalla, afinado com o diretor Miguel Kohan, destaca a mesma importância das origens do tango na zona portuária da capital. "O tango nasceu como uma música de imigrantes. Teve uma origem pouco nobre, praticada nos bajos-fondos. No início, não tinha nem o bandoneón. Era mais rupestre." Santaolalla ganhou projeção internacional com seu grupo Bajofondo. Ganhou duas vezes o Oscar pela música de filmes. Apesar disso, ele se considera, até hoje, um outsider."Sempre trabalhei à margem. Minha raiz é o folclore, estudei muito as várias faces regionais da música argentina para fazer disso minha matéria de criação." A multiplicidade do tango o encanta e ele cita os exemplos de duas intérpretes presentes em Café dos Maestros. "Virginia Luqui representa o lado mais dramático do tango, a teatralidade, e ela, por sinal, foi atriz antes de fazer carreira na música. Virginia é uma atriz que canta, ou uma cantora que atua. Lágrima Rios, que era uruguaia e morreu no final de 2006, foi a grande dama do candombe, a música dos negros, pois o tango, não sei se você sabe, tem um diálogo muito forte com a raiz africana."O repórter arrisca a pergunta - então é a matriz africana que une o tango, o samba e o jazz, e que permitiu inclusive que Astor Piazzolla e Gerry Mulligan fizessem aquele disco clássico, Reunión Cumbre? Santaolalla diz que sim e, inclusive, gostaria der todas essas culturas musicais dialogando mais entre si. Ele adoraria levar o espetáculo El Café de los Maestros para o Brasil. Mas sairia muito caro e há outro problema. "Muitos desses artistas são ?viejitos? de quase cem anos. Talvez não agüentassem a pressão de um tour internacional", se bem que ele se lembra, com emoção, da alegria que os artistas de Café dos Maestros tiveram no set, a maioria deles cruzando-se pela primeira vez, contando suas histórias, interagindo musicalmente.Quando se define como "outsider", Santaolalla aplica a definição ao próprio cinema. Ele adora compor, mas não se encaixa ao modelo convencional do compositor hollywoodiano. Tem de ser com autores como Ang Lee (Brokeback Mountain), Alejandro González-Iñárritu (Babel) e Walter Salles (Diários de Motocicleta). "Não gosto de compor sobre as imagens filmadas. Meu sonho é uma integração mais funda entre imagem e música. Gosto de compor antes, a partir do roteiro e de diálogos com os diretores, para que a imagem já nasça com a música." Quando encontra os autores que aceitam a parceria, Gustavo Santaolalla não merece menos do que nota 10.

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