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Cuenca abriga museu dedicado apenas à arte abstrata da Espanha

Local é um dos mais completos acervos de obras de artistas

Eduardo Vessoni - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2015 | 03h00

Do lado de fora, casas erguidas no século 15 se agarram a precipícios rochosos como se flutuassem sobre aquela cidade de passado medieval que nascera como fortaleza muçulmana. Em uma das montanhas do vale do Huécar, um imenso par de olhos verdes pintados em rochas de relevo cárstico corroídas pelo tempo relembra a lenda da bela moura impedida de se casar com seu amado soldado cristão.

É neste contexto geográfico que se localiza o Museo de Arte Abstracto Español, na minúscula Cuenca, no Noroeste da Comunidade Autônoma de Castela-La Mancha, na Espanha.

Aberto em 1966 com o acervo pessoal do pintor Fernando Zóbel, um de seus fundadores, o museu é dono de um dos mais completos acervos de obras de artistas abstratos da Espanha dos anos 1950 e 60, criadores que ganharam o mundo com suas abstrações gestual e geométrica, como Gustavo Torner.

Ao lado de Zóbel e Gerardo Rueda, o pintor e escultor nascido em Cuenca encabeçou o projeto do espaço expositivo que funciona quase como uma extensão do cenário desenhado lá fora, ocupando uma das famosas “casas colgadas” (casas penduradas) que, por séculos, se debruçam sobre aquele labirinto medieval construído sobre diversos níveis de pedras, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Durante o restauro da construção moldada sobre paredões rochosos, projeto assinado pelos arquitetos Fernando Barja e Francisco León Meler, foram preservadas as características arquitetônicas originais daquela casa flutuante com as varandas suspensas no ar sobre vigas de madeira; um pedaço da escada original; um arco de estilo gótico isabelino; e tetos com artesoado mudéjar.

Tudo ali no mesmo endereço, como não poderia ser diferente em uma cidade multicultural (assim como em outros rincões da Espanha) que teve sua história escrita por mãos muçulmanas e cristãs. O Museo de Arte Abstracto Español não dá as costas para seu entorno. Incorpora-o e o leva para dentro (ou o coloca do lado de fora, de acordo com o ponto de vista de quem o vê).

Molduras. Um dos destaques da instituição é a impressionante Sala Branca, localizada em um dos ambientes onde foram construídas varandas para ampliar o espaço útil da construção. Entre obras como a pintura craquelada de César Manrique feita com terra vulcânica das Ilhas Canárias, o espaço surpreende com as paredes vazadas em forma de quadros que emolduram a geografia rochosa lá de fora.

A tridimensionalidade da Sala Branca se completa com a obra Columnas, de Eusebio Sempere, conjunto de três esculturas de aço cromado que, ao girar sob seu próprio eixo, se pintam com os matizes de luz natural externa.

Conhecido como o “poeta da geometria”, esse artista de Alicante tem expostas outras peças menos tecnológicas - assim o próprio museu define o seu trabalho -, como o abstracionismo das estações do ano representadas na pintura Horizontes.

Sob a premissa da qualidade em detrimento da quantidade, a instituição abriga um acervo discreto com pouco mais de cem obras entre pinturas e esculturas expostas nas salas de madeira dos dois andares abertos para visita.

Outro destaque do museu é o monocromático trabalho a óleo de Antonio Saura, irmão do cineasta Carlos Saura (Cría Cuervos e Bodas de Sangue). De traços surrealistas influenciados pelo francês André Breton, Saura desconstrói com seu gestualismo (action painting) personalidades públicas como a atriz francesa Brigitte Bardot, retratada em obra homônima. “Para fazer um retrato, a presença do modelo conta menos do que o fantasma mental por ele forjado”, já se afirmou, certa vez, sobre o pintor morto em 1998.

Rafael Canogar também rompe com as tradições em sua obra Toledo, exposta em uma das salas do museu depois de passar pela mostra New Spanish Painting and Sculpture, no MoMA de Nova York. Com título em homenagem à cidade das três culturas (judaica, cristã e muçulmana), onde Canogar nasceu, o quadro idealiza “uma cidade metafórica e reelaborada na memória” a partir de traçado em preto e branco.

Monumento. Mas não apenas nas amplas salas do Museo de Arte Abstracto Español que a criação abstrata encontrou lugar em Cuenca. Não muito longe dali, a poucos passos dados por corredores labirínticos de seu centro histórico, a cidade abriga o polêmico Monumento a la Constitución, de Gustavo Torner.

Localizada ao lado da Torre de Mangana, construção icônica de Cuenca, que serviu como relógio desde o século 16, é uma referência à Constituição espanhola de 1978 e, mais uma vez, leva abstracionismo ao setor histórico da localidade.

Segundo descrição do próprio autor na época de sua inauguração, em 1986, a obra é uma “estrutura plural e unitária em tensões de equilíbrio sobre uma base de grande firmeza”. O monumento de ferro trapezoidal com um cubo central pendurado por cabos de aço é mais um exemplo da presença marcante de uma arte abstrata que encontrou espaço em um destino apegado a suas tradições. E caso vençam os mais tradicionais (a criação divide opiniões até hoje), diz a lenda que o contrato assinado por Torner contempla uma indenização ao autor caso ocorra a total destruição do trabalho.

O encontro de manifestações artísticas tão opostas pode ser encontrado também no interior da Catedral de Santa María La Mayor, considerada a primeira construção realizada após a conquista cristã, em 1177. De estilo gótico, o templo é conhecido pelos vitrais abstratos - outra polêmica criação de Torner - com cores fortes acentuadas pela entrada de luz natural que colore uma das naves da igreja.

De origem desconhecida, Leyenda de la Mora (Lenda da Moura) é outra intervenção improvável para uma cidade medieval histórica. Dizem que foram pintados, da noite para o dia, por alunos da Faculdade de Belas Artes de Cuenca em referência à lenda da jovem que se apaixonara por um soldado cristão, logo após a reconquista da cidade.

O casal tentara fugir para selar a união proibida, mas o prometido seria assassinado antes que a fuga se concretizasse. Conta-se que a moura teria morrido de amor no Cerro de la Doncella, onde hoje dois grandes olhos verdes se voltam, fixamente, para o centro histórico e para aquelas casas flutuantes que aprenderam, ainda que sob polêmica, a abrigar artes de novos tempos.

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