Crítica severa ao acúmulo de bens dá o tom a fábula infantil

Duas irmãs conversam sobre vantagens e desvantagens de se morar no campo e na cidade, sem perceber que são observadas pelo diabo, que está disposto a tentar o marido de uma delas. Afinal, o camponês Pakhóm, ao ouvir o diálogo das mulheres, pensa, silencioso: "Se eu tivesse muita terra, não temeria nem mesmo o próprio diabo". Esse é o ponto de partida para Lev Tolstói criar uma fábula infantil, De Quanta Terra Precisa o Homem?, lançada agora pela Companhia das Letrinhas (tradução e ilustrações de Cárcamo, 56 páginas, R$ 36), em que trata do perigo provocado pelo desejo incontrolado por bens.Dono de uma grande propriedade que herdou dos pais (sua família era ligada aos czares), Tolstói logo revelou seu desencanto com a opulência e a vida recheada de luxos. Quando desistiu de buscar respostas para suas indagações na filosofia, na ciência e na teologia, o escritor decidiu libertar-se das hierarquias sociais, seguindo rigidamente os ensinamentos cristãos - por conta disso, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, dominante em seu país e que era alvo constante de suas críticas.A figura do latifundiário, portanto, inspirava-lhe despeito, como mostra o camponês Pakhóm. Desejoso de acumular terras, ele sai em busca de alguns hectares. Logo conhece um povo nômade, os bashquires, que lhe apresentam uma proposta tentadora: toda a terra que conseguisse percorrer a pé durante um dia seria dele ao preço de mil rublos. A única condição era que, no mesmo dia, deveria retornar ao lugar de onde partiu; caso contrário, perderia o dinheiro.Sempre insatisfeito, ele empreende longas caminhadas, gastando toda sua energia até finalmente cair morto. "Dois metros de terra, da cabeça aos pés, foi tudo de que Pakhóm precisou", escreve Tolstói, no último parágrafo da história.

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

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