Crítica

Laurent Cantet jura que não ficou decepcionado com a derrota de Entre os Muros da Escola no César, o Oscar do cinema francês. No último ano, até por conta das sucessivas viagens a que seu trabalho vencedor da Palma de Ouro o levou, em todo o mundo, ele não teve muito tempo de ver outros filmes. Mas sentiu que algo importante se passava entre os indicados para o César deste ano - "A maioria era de filmes comprometidos com a realidade social. Nada das elucubrações intelectuais que durante tanto tempo deram uma cara ao cinema francês." O repórter arrisca uma interpretação - basta estar na França para perceber que há uma rejeição muito forte ao presidente Nicolas Sarkozy e à sua política econômica e social. Cantet concorda - "É a própria situação do país que faz com que, não apenas o público, mas os diretores estejam tão preocupados em falar sobre a França real." Entre os Muros da Escola inscreve-se numa vertente que, em Hollywood, se constitui num gênero. Você já viu muitos filmes sobre professores que colocam baderneiros nos eixos. O filme de Cantet é mais complexo que isso. Baseado no livro de François Bégaudeau, inspirado em sua experiência na sala de aula, o filme que estreia na sexta propõe uma discussão mais ampla que, na realidade, engloba tudo. Há um diálogo vivo que, com frequência, questiona os limites da autoridade dentro da sala de aula. A língua de Molière é colocada em xeque e, num determinado momento, o professor usa uma palavra que uma das estudantes toma como ofensa, como se ele dissesse que ela não presta. Mais tarde, essa mesma garota vai revelar que anda lendo Platão, A República. Nada é simples. A mais radical das disputas levará à expulsão de um dos garotos, Suleymane. No projeto original, Cantet filmou o retorno do jovem para Mali, mas depois chegou à conclusão de que era um erro. Ele não precisa sair de dentro da sala de aula, de entre os muros da escola, para oferecer o mais completo retrato da França feito pelo cinema, nos últimos anos.

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