Cristiano Xavier
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Cristiano Xavier segue trilha dos grandes paisagistas

O fotógrafo mineiro lança seu primeiro fotolivro, 'Magna', com imagens de 30 lugares em cinco continentes

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2018 | 06h00

Mineiro de Belo Horizonte, Cristiano Xavier começou a fotografar em 1998, mas só agora, 20 anos depois, lança seu primeiro livro, Magna, hoje, dia 10, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. A demora é justificável. O livro é o resultado de uma peregrinação por 30 lugares de todos os continentes. Foram dez anos de pesquisa e contemplação da paisagem para captar fenômenos naturais em montanhas, florestas, praias e desertos. Tudo o que Xavier reuniu no livro, parafraseando a biografia do norte-americano Ansel Adams (1902- 1984), foi influenciado pelo impacto do cenário natural.

A citação a Ansel Adams vem a propósito de vários pontos de identificação entre o jovem fotógrafo mineiro, de 43 anos, que viveu nos EUA, e o mestre supremo de todos os paisagistas. Adams, ativista ambiental que lutou pela preservação de parques nacionais dos EUA, foi também um perfeccionista na composição e no equilíbrio tonal de suas fotos. Hoje, com maiores recursos de pré-visualização, garantidos pela alta tecnologia, talvez seja mais fácil controlar a profundidade de campo e a nitidez das fotos, mas o certo é que a sensibilidade do fotógrafo conta mais que a da câmera digital.

Cristiano Xavier, aliás, vai na contramão do ritmo veloz imposto pela modernidade para captar a natureza em seu silêncio imperioso, fora do tempo. Tentar uma conexão de caráter numinoso com os lugares começa, segundo o fotógrafo, com a contemplação. O livro, segundo o jornalista e cientista social Matthew Shirts, que assina o prefácio, é, portanto, “uma obra conjunta, a comunhão de terra, céu e luz”.

Xavier, que trocou o consultório de dentista por expedições fotográficas, já visitou lugares como a Islândia, o Butão, a Namíbia e a Patagônia. No começo, essas expedições eram financiadas pelo estúdio que criou em Belo Horizonte para produzir retratos e outras fotos de encomenda. Em 2013, Xavier e sócios fundaram a OneLapse, arregimentando outros entusiastas da fotografia que o seguem em expedições ao redor do mundo, dividindo com ele a experiência de contemplar paisagens inauditas em lugares de difícil acesso.

“A fotografia de natureza exige paciência, tempo e planejamento”, diz Xavier, contando a difícil tarefa de contemplar para entender o lugar eleito pelo fotógrafo. “Muitas vezes passamos frio para aguardar o momento exato do registro”, conclui, assinalando que isso se assemelha a uma provação de caráter espiritual. Sem conexão com a natureza, garante o fotógrafo, não existe a mínima possibilidade de captar a grandiosidade de espetáculos como o sol iluminando os penhascos de Londragar, na Islândia, ou a luz rompendo a névoa numa manhã fria no parque de Yosemite, preservado com a ajuda de Ansel Adams, parque também registrado no livro de Xavier.

Mas, ao contrário de Adams, que formou nos anos 1930 um grupo de fotógrafos contemporâneos que se rebelaram contra o impressionismo característico da fotografia do período, o brasileiro tem uma trajetória solitária. Não é um ortodoxo que repudie a tradição pictorialista. Xavier, claro, está longe de propor uma volta ao tempo do inglês Peter Henry Emerson (1856-1936) ou do alemão Heinrich Kühn (1866-1944), mas o fato é que as paisagens montanhosas registradas pelo fotógrafo brasileiro conservam algo da pintura romântica do alemão Caspar David Friedrich (1774-1840), expoente do movimento.

O exemplo mais nítido dessa afinidade eletiva está na própria capa do fotolivro Magna, produção luxuosa da editora Vento Leste editada por Mônica Schalka com projeto gráfico de Ciro Girard. Nela, um fragmento do gelo no cume do Maciço Paine, no Chile, parece ter saído da tela mais conhecida de Caspar David Friedrich, Caminhante Sobre o Mar de Névoa (1818), que integra o acervo da Kunsthalle de Hamburgo. A diferença é que, na foto de Xavier, a figura humana está ausente – aliás, como em todas as imagens do livro Magna. Figura icônica do romantismo, o viajante de Friedrich é, de certo modo, alguém parecido com o “Wanderer” Xavier, alguém arrebatado pela imponente paisagem como se testemunhasse uma epifania.

“A figura humana está ausente porque desejo que o leitor se coloque no lugar desse observador que contempla, o que explica o tamanho do livro (30 x 37 cm)”, justifica Xavier. “Gostaria também que essas paisagens estimulassem a consciência ambiental, assim como as fotos de Ansel Adams ajudaram a preservar parques como o Yosemite.”

Outra referência de Cristiano Xavier é o fotógrafo, também norte-americano, Art Wolf, de Seattle, hoje com 66 anos, que fez do registro da natureza e da vida selvagem o tema de sua carreira. “Fotógrafos como Art Wolf e Araquém Alcântara são referências muito importantes em minha vida”, reconhece o fotógrafo. Contudo, ele não tem com a arte fotográfica um ‘approach’ erudito. “Sou autodidata, me identifico com alguns fotógrafos e pintores, mas é a intuição que me guia”, resume. “Coloco minha alma nessas fotos”, finaliza, revelando seu novo projeto: fotografar árvores raras do mundo.

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