Crime Delicado e a violência do processo do desejo

Numa cena de Crime Delicado, às 22 h no Cinemax, o crítico de teatro interpretado por Marco Ricca vai parar num bar, onde encara um casal numa disputa amorosa. O homem vira-se para ele - quem faz o papel é o diretor Cláudio Assis, de O Baixio das Bestas - e diz que Marco não ama. ''Quem não reage rasteja'', acrescenta.Crime Delicado é desconcertante, mas com certeza integra-se ao edifício da obra autoral de Beto Brant. O filme retoma o tema do invasor e prepara Cão sem Dono - que é melhor, mas esta é outra história. Marco busca a perfeição na arte. Na vida, vive um violento processo de desejo por uma mulher imperfeita (Lilian Taublib). Ambos invadem, e subvertem, a vida um do outro. Ele vai além. Ocorre um estupro, ou o que se discute na Justiça se foi um estupro.Beto Brant retoma temas próximos a O Processo do Desejo, de Marco Bellocchio, que também é melhor. No filme dele, mais do que processo, é a violência do desejo. Crime Delicado invade Cão sem Dono. O filme seguinte o esclarece com mais propriedade. O universo autoral de Beto Brant tem razões que a razão desconhece, mas elas terminam, sempre, por aflorar.

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