Criações de Lacroix sobem ao palco

Faap mostra 20 anos de glamour do estilista no teatro, no balé e na ópera

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2009 | 00h00

Quando criança, o estilista francês Christian Lacroix tinha o costume de ir à ópera com a mãe e depois, quando chegava em casa, desenhava novas versões dos figurinos que acabara de ver no palco. "Ele sempre gostou de desenhar e também sempre gostou de roupas", admite Delphine Pinasa, diretora do Centre National du Costume de Scène de Moulins, na França, e curadora da mostra Christian Lacroix - Trajes de Cena, que será inaugurada amanhã, às 19 h, para convidados e na segunda-feira, para o público, no Salão Cultural da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). A exposição, que veio quase igual à apresentada aos franceses em 2007 - e faz parte do calendário do Ano da França no Brasil, reúne a ligação do estilista com a moda e as artes cênicas, ao exibir 105 figurinos que ele criou, desde a década de 1980, para óperas, peças de teatro e de balé, além de 80 croquis e desenhos..Antes mesmo de criar, em 1987, sua maison de alta-costura, Lacroix já se dedicava à concepção de figurinos - o primeiro foi em 1985. "Minha entrada no mundo da moda aconteceu por causa do teatro. Metade do portfólio que apresentava era constituída de maquetes de cenografia, mas a outra metade fora conquistada pelos figurinos", afirma o estilista em um dos textos do catálogo da mostra. Lacroix, que em 1997 esteve em São Paulo por conta da exposição Da Inspiração à Finalização de uma Roupa de Alta-Costura, também apresentada na Faap, não veio desta vez de certa maneira por causa do desgaste provocado pela crise financeira por que passa sua maison (leia ao lado).Lacroix nunca separou as duas vertentes de criação em sua trajetória e, como diz Delphine Pinasa, essa é uma das características que o destacam para além de seu reconhecível estilo barroco inspirado nas mulheres da região da Provença - ele nasceu em Arles - e com base na estética do século 18. "(Jean Paul) Gaultier e (Coco) Chanel fizeram um ou outro trabalho com figurino, mas Lacroix faz isso há mais de 20 anos! É uma maneira de ele se recriar também", afirma a curadora, completando que o trabalho com alta costura é algo mais solitário e com o teatro, uma ação em conjunto e de interpretação das peças. O Centre National du Costume de Scène (Centro Nacional do Traje de Cena), que Delphine dirige, foi inaugurado há três anos e reúne acervo de cerca de 9 mil costumes de teatro, ópera e balé. Por sua ligação com esse segmento, Lacroix é o presidente da instituição: o estilista doou sua coleção de figurinos ao Centro do Traje de Cena, além de mais de 3 mil desenhos.A exposição na Faap, com cenografia de Michel Albertini, coloca o Salão Cultural todo escuro, tendo iluminadas oito grandes vitrines (com sete metros de dimensão), cada uma delas dedicada aos figurinos de peças cênicas - entre elas, Otello e Fedra, que é um de seus trabalhos preferidos e pelo qual foi premiado. Começa o percurso com as obras de Sherazade, criação de balé da Ópera Nacional de Paris de 2001. "São muitas cores, quando você entra, é como um fogo", diz a curadora. Lacroix mistura tecidos, técnicas, estampas nos trajes inspirados no estilo oriental - e, curiosamente, coloca uma das personagens numa bela burca branca com detalhes dourados. Em outra janela, mais uma criação vibrante é a de Carmem, encenada em arena de Budapeste em 1989. Os trajes misturam a inspiração espanhola e cigana -, logicamente, com o predomínio do vermelho.Ao longo da mostra é possível ir relacionando os desenhos do estilista e os figurinos prontos, percebendo sua maneira de, muitas vezes, ter de lançar mão da criatividade para conseguir feitos originais - por exemplo, alguns dos trajes da ópera Heliogábalo são feitos de papel. No centro, há também trajes de balé pendurados e girando, numa atmosfera lírica.

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