Crânio de René Descartes é disputado por escola

Colégio onde filósofo estudou alega que Museu do Homem de Paris é 'modesto' para abrigar seu aluno

Lizzy Davies, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Ele foi o filósofo que postulou a separação da mente e corpo, e que, postumamente, deve estar muito feliz por isso. Desde a sua morte, o corpo de René Descartes foi desmembrado por abutres intelectuais que roubaram seus dedos para a posteridade, os ossos para joalherias e sua cabeça para ganhos financeiros.Agora, no que é visto como o mais novo insulto à dignidade de um dos maiores pensadores da França, há planos de continuar a jornada peripatética dos seus restos mortais, com a transferência do seu crânio de Paris para a escola onde ele estudou quando adolescente.A escola militar Prytanné, perto da cidade de La Flèche, a noroeste da França, requereu oficialmente o crânio do filósofo para ser exposto na igreja anexa à escola. Ansiosa para participar das homenagens ao seu mais famoso aluno, a instituição entende que o local em que se encontra hoje o crânio do filósofo, no Museu do Homem de Paris - entre bustos do homem pré-histórico e do jogador de futebol Lilian Thuran -, é muito modesto.A escola, que era administrada por jesuítas quando Descartes ali estudava, recebeu o apoio do primeiro ministro François Fillon. "Em Prytanné, ele estará em casa", disse Jean de Noishue, um dos assessores políticos de François Millon, encarregado da transferência. "É um projeto que tem recebido apoio."Mas alguns historiadores estão indignados com o fato de as autoridades se preocuparem mais com a transferência e exibição do crânio do filósofo do que em juntá-lo ao resto do seu corpo, que, desde 1819, encontra-se na igreja parisiense de Saint Germain des Près."Acho isso escandaloso", disse Clementine Portier-Kaltenbach, jornalista que escreveu à ministra da Cultura, Christine Albanel, alertando-a dos planos. Ela lamenta o fato de o corpo de Descartes ficar assim fragmentado, comparando-o ao de Charlotte Corday, revolucionária cujo crânio está separado do seu esqueleto. Para ela, as autoridades devem, primeiro, comprovar se o crânio que se encontra no Museu do Homem é, de fato, o de Descartes.O crânio - mantido em uma caixa protegida, enquanto o que os visitantes admiram é apenas uma máscara mortuária - tem sido objeto de um intenso debate desde que foi desenterrado em 1821, e muitos dizem que sua autenticidade tem de ser provada antes da transferência."Do ponto de vista arqueológico, não faz nenhum sentido", disse Philippe Charlier, médico legista, cujo laboratório é especializado em restos de ancestrais humanos. Segundo ele, existem, no mínimo, mais quatro crânios - um em Estocolmo e três em coleções particulares - que teoricamente podem ser o de Descartes. TRADUÇÕES DE TEREZINHA MARTINO

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