Corpo e seu Ímã feito de refinamento

Obra cria novos vocabulários e, melhor, valoriza a singularidade de cada bailarino

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

Antes, era uma cena na qual existia a luz. Agora, parece que o mundo passou a ser feito de luz, e nele acontece a dança. Ímã, do Grupo Corpo, que entra hoje na sua segunda e última semana em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, instaura uma outra percepção na dança. A nova obra de Rodrigo Pederneiras, que tem cenário e iluminação de Paulo Pederneiras, é a primeira a nascer do Palletta, o equipamento recém-lançado pela empresa norte-americana ETC, que faz estreia mundial no Brasil, com o Grupo Corpo.Os leds do Palletta propõem um novo entendimento de espaço. A coisa é muito mais séria do que parece. Para Paulo Pederneiras, o led traz uma revolução da mesma natureza da que o computador fez - e, pelo resultado de seu primeiro e ainda embrionário uso, parece ter razão. Estamos no limiar de um mundo novo em artes da cena, que repropõe a relação parte/todo. A luz deixa de ser um dos elementos a povoar o palco, e se transforma na própria espacialidade (o modo de o espaço existir), no cenário, na sua textura, no seu volume. Mas atenção, porque este é um volume multidimensional, no qual a gravidade se espalha por todas as dimensões, e nessa nova distribuição, o peso dos corpos também aparece de uma forma diferente.É a dominância do monocromatismo que opera essa percepção. As cores deslumbrantes dessa luz não "criam" somente o chão, o fundo, os corpos e as laterais, mas também todo o espaço "entre" que existe no que, até então, era tratado como um lugar pronto (um palco), no qual se colocam corpos dançando, cenários, e os iluminam. Este novo mundo de texturas monocromáticas de Paulo Pederneiras, cujas cores podem lembrar de imediato Andy Warhol (1928-1987), nos remete à discussão que Dan Flavin (1933-1996) fez no seu trabalho (www.diacenter.org/ltproj/flavbrid/). A partir de 1962, esse artista, nascido em Nova York, se dedicou a modificar o espaço com a ilusão de uma luz real usando fluorescência. Tratou a luz na sua materialidade, sem se interessar em propor contemplação, e sem construir narrativas simbólicas. Ele via a luz como "uma situação para se entrar e sair" porque a pensava como um fato.Esse mesmo tipo de entendimento se faz presente nas escolhas de Freusa Zechmeister. Seu figurino é o que dá visualidade ao que já está nos monocromatismos, mas não de forma aparente. É ela quem materializa, com as suas cores, os "entre". Cada uma de suas cores vai agregando mais uma dimensão ao monocromatismo, espalhando a sua pluridimensionalidade espacial. Paulo e Freusa montam um mundo que deixa mais evidente os avanços da coreografia de Rodrigo Pederneiras. Em Breu, a criação anterior, de 2007, ele tinha nos deixado com o escuro e na dominância do chão. Agora, focou a verticalidade, a busca da leveza, e valorizou a singularidade de cada um dos seus 20 primeiros bailarinos. É quase injusto destacar somente alguns, dada a excelência da companhia, mas há algo nos materiais criados para Everson Botelho, Janaína Castro, Mariana do Rosário, Sílvia Gaspar, Edson Hayzer e Elias Souza que os fazem brilhar ainda mais.Em Ímã, a trilha especialmente composta pelo Trio +2, formado por Kassin, Domenico e Moreno, atuou mais como um agente estrutural do que propriamente musical. O fato de oferecer grande variedade de gêneros e instrumentações estimulantes parece ter levado Rodrigo Pederneiras a também fabricar outras "sonoridades" para seus gestos, dilatando suas formas de encaixar/desencaixar um corpo no outro com torções em variadas direções e fazendo da atração/repulsão a dinâmica dessa obra.Os duos permanecem sendo a confirmação da maestria do coreógrafo Rodrigo Pederneiras. Essa é uma língua que ele não apenas domina completamente, como, sobretudo, expande. É surpreendente como continua a formar, a partir de seus próprios padrões, outros vocabulários. Há uma exploração das costas como superfícies de contato e de rompimento de contato que anuncia desdobramentos em uma direção instigante. O seu processo de criação se organiza por dentro, porque é dos materiais que produz que ele vai retirando os que ainda vai inventar, em uma linhagem evolutiva que pede por uma pesquisa à parte. Com essa nova pluridimensionalidade feita de cor e luz, o movimento dos corpos se recorta nos mínimos detalhes - o que torna ainda mais explícita a impecável qualidade de cada um do elenco. A companhia chegou a um refinamento tamanho que precisamos tratar cada um deles do mesmo jeito com que lidamos com os craques. De agora em diante, é necessário agregar os 20 nomes dos bailarinos do Grupo Corpo aos que a maioria de nós reconhece como os melhores naquilo que fazem.Ímã é acompanhada pela densidade barroca de Bach, obra que o Grupo Corpo estreou em 1996, naquela que depois ficou conhecida como a Bienal Brasileira, em Lyon. Para os fãs de Ana Paula Cançado, é a oportunidade de acompanhar a sua despedida dos palcos. Imperdível, como todos os outros momentos de pura beleza que transformou em sinônimo da sua dança.De São Paulo, a temporada segue para Paulínia (dia 18), Brasília (27 a 30), Belo Horizonte (4 a 8 de setembro) e Porto Alegre (2 e 3 de outubro). Segundo os organizadores, o Rio de Janeiro não foi incluído por falta de um palco adequado. ServiçoGrupo Corpo. Teatro Alfa (1.110 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000. 4.ª, 5.ª e sáb., 21 h; sáb., 21h30; dom., 18 h. R$ 40/R$ 90. Até 16/8

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