Corpo a corpo com o conto

Invertendo a trajetória normal dos escritores, Milton Hatoum, cronista do Caderno 2, começou a carreira pelo romance, consagrou-se no gênero, e apenas agora lança A Cidade Ilhada, seu primeiro livro de narrativas curtas

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de março de 2009 | 00h00

Apreciador do boxe, o escritor argentino Julio Cortázar utilizava o esporte para apresentar uma precisa definição sobre as diferenças narrativas entre o conto e o romance: "Enquanto no romance se ganha por pontos, no conto, a vitória só vem por nocaute." Com isso, pregava uma economia verbal notável para a narrativa curta, cuja trama não deve conter nada supérfluo. Fiel seguidor do mesmo lema, outro peso pesado da literatura, Milton Hatoum, cronista do Estado, lapidou os contos que escreveu ao longo dos últimos dez anos para lançar A Cidade Ilhada (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 31), seu primeiro volume de narrativas breves que acaba de chegar às livrarias.São relatos que refletem a trajetória do autor, que partiu de Manaus para, ao mesmo tempo, descobrir e encantar o mundo. "Fui na contramão da carreira da maioria dos escritores, que começam publicando contos", afirmou ele em entrevista. "Mas os meus sempre sofrem releituras e alterações, pois descobria que podia abreviar e adensar ao mesmo tempo."Outro renomado autor argentino, Jorge Luis Borges, dizia que escrever um romance com o mesmo rigor exigido por um conto seria uma tarefa insuportável. Afinal, no conto, cada palavra tem o seu peso, o seu lugar, a sua importância e nada aparece por acaso. Um romance pode ter quedas, capítulos mais fracos, pode ter altos e baixos. Um conto, jamais. Se o ritmo cai, se a palavra se descobre errada, se o autor vacila, o leitor o abandona.Arquiteto por formação, Hatoum não desconhece a importância do encadeamento das palavras, especialmente nos seus contos, que trazem lirismo em vigas mestras e harmonia em canos emparelhados. A partir de fragmentos da memória, ele utiliza com eficiência uma estratégia do conto moderno, ou seja, na superfície, destaca-se a narração de uma história, mas, em camadas mais profundas, o leitor acompanha o desenvolvimento de uma segunda trama. "A surpresa não está propriamente em uma revelação final, mas no desenvolvimento dessa segunda história e como ela desponta como algo secreto", comenta.Nenhum texto foi publicado sem rigorosa revisão, que os adensou e, em alguns casos, provocou até a mudança de título. Em comum, quase todos tratam de pessoas que viveram ou passaram por Manaus - ainda que evite a alcunha de memorialista, Hatoum não nega a importância em seu trabalho de sua terra natal, cidade que, hoje, se afasta cada vez mais daquela na qual viveu até a juventude. Fragmentos de vida que exemplificam desejos e fracassos.Os contos, aliás, já sinalizam uma pequena mas perceptível mudança em sua escrita: aos poucos, o foco narrativo se afasta da Amazônia para atingir outras regiões - Hatoum confirma, por exemplo, a tentação por uma história ambientada em São Paulo e outra em Brasília. "Como estou envelhecendo fora de Manaus, a cidade vai se transformando em uma fotografia do passado."

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