Coro da Osesp em estado de graça

Bela a apresentação do grupo em Um Réquiem Alemão op. 45, de Brahms

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Desde a sua primeira entrada em pianíssimo, no "Bemaventurados os que choram", guiado pela regência muito sutil e precisa de Helmut Rilling, nunca foi menos do que excelente o recente desempenho do Coro da Osesp, nessa grande reflexão sobre a morte que é Um Réquiem Alemão op. 45, de Johannes Brahms. Intimista, cheio de recolhimento nesse primeiro movimento, a que a ausência dos violinos dá uma coloração muito sombria; impressionante na marcha lenta do "Porque toda a carne é como a relva", de texturas muito claramente trabalhadas; o Coro da Osesp teve momentos de grande virtuosismo em passagens jubilosas como a fuga "Tu és digno, Senhor nosso Deus", que encerra o sexto movimento, e que foi um dos momentos mais gratificantes na execução do Réquiem apresentada naquela quinta-feira.O bom resultado do conjunto deveu-se também, e principalmente, à equilibrada regência de Rilling: austera e intensa nos dois primeiros movimentos; com enérgico arroubo na fuga do terceiro; construindo cuidadosamente o movimento ascensional que leva à conclusão do sexto movimento; para, depois, encontrar em "Bemaventurados os que morrem no Senhor" um encerramento sereno. Rilling soube combinar, em doses exatas, a austeridade luterana dessa música e a maneira muito peculiar que Brahms tem de expressar os extremos de emoção de que às vezes é tomado.A voz clara, sonora, do barítono Michael Nagy deu relevo dramático muito convincente às suas intervenções - em que Rilling se mostrou de uma grande capacidade técnica em balancear os volumes das entradas do solista com as do coro e a orquestra. Quanto ao soprano lírico Sylvia Schwartz, o seu timbre é bonito e bem projetado; mas ela ficou aquém das necessidades expressivas de uma ária tão vibrante quanto Ihr habt nun Traurigkeit (Agora vocês estão tristes), que é talvez o ponto culminante da mensagem de consolação do Réquiem.Mas Um Réquiem Alemão é essencialmente um dos maiores monumentos da literatura coral do século 19, no qual Brahms concilia uma linguagem moderna com a de toda a tradição da música litúrgica do passado. E, nesse sentido, nunca é demais insistir quanto se deveu à participação do coral regido por Naomi Munakata a alta qualidade da execução ouvida na Sala São Paulo.

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