Coppola vai à Argentina para catarse

Diretor, também autor do roteiro, fala de família, rancor e segredos em Tetro

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Há 42 anos, o jovem Francis Ford Coppola veio pela primeira vez a Cannes, para mostrar em concurso seu segundo longa, Agora Você É Um Homem. Depois disso, ele voltou outras vezes e ganhou duas vezes a Palma de Ouro - por A Conversação e Apocalypse Now -, mas o próprio Coppola admite que somente agora chegou aonde queria. Ele abriu ontem a Quinzena dos Realizadores, uma seção paralela que não integra a seleção oficial, formada pelos filmes da competição e os da mostra Um Certain Regard. Leia sobre Cannes no blog do MertenDuas horas já havia gente na fila, esperando para ver o novo Coppola, Tetro, uma produção da American Zoertrope com a Argentina, onde o filme foi rodado (em Buenos Aires e na Patagônia). Pela terceira vez em sua carreira, após Caminhos Mal Traçados (The Rain People) e A Conversação, Coppola assina sozinho o roteiro. E ele também produz, dirige, o que faz de Tetro um filme do qual ele é o autor completo. Em outros momentos de sua carreira, principalmente após O Poderoso Chefão, em 1972, Coppola dispôs de liberdade para fazer os filmes que queria. Mas, depois, ele se endividou e passou uma década inteira, dos 40 aos 50 anos, fazendo filmes de encomenda, para pagar o que devia aos bancos. Essa fase acabou. Youth without Youth mostrou que ele podia fazer filmes pequenos, e pagar por eles.É o que ocorre em Tetro. A parceria com a Argentina deve-se a dois fatores. "Precisava de parceiros comerciais e também um país, uma cidade, com forte tradição literária e teatral", disse Coppola, numa Q&A, sessão de perguntas e respostas, após a projeção de Tetro. Ele chegou com a mulher, Eleanor, o filho Roman, seu assistente e diretor de segunda unidade, e os atores Alden Ehrenreich e Maribel Verdu. Vincent Gallo era esperado somente à noite, na projeção oficial de Tetro. Coppola carregou a ideia desse filme por muitos anos, mas o escreveu rapidamente. É a história de dois irmãos, um que vive à sonbra do outro, que queria ser escritor e abandonou sua vocação. Ambos são filhos de um famoso maestro, um homem dominador. A família separou-se no ressentimento e no ódio. Segredos vêm à tona no desfecho, compondo a possibilidade de construção de um novo núcleo.Quando Coppola pensou pela primeira vez no projeto, a ideia que lhe vinha era a desse jovem vestido de marinheiro chegando a Detroit. Ele continua usando trajes da Marinha, mas chega agora a Buenos Aires. Sua relação com o irmão, mas há um segredo, é inspirada - emocionalmente, informa o diretor - em Eugene O?Neill e Tennessee Williams. O fato de Coppola ser filho e sobrinho de músicos, como a dupla de protagonistas, não torna o filme autobiográfico. "Nada é rigorosamente pessoal, tudo é verdadeiro", esclarece o diretor.Há um acidente de carro, na verdade dois, e Coppola perdeu um filho assim. A fixação de um irmão pelo outro evoca O Selvagem da Motocicleta - e ambos os filmes são em preto e branco, com ocasionais cenas em cores -, as relações de poder na família remetem a O Poderoso Chefão. Tetro pode ser visto como uma obra síntese, um recomeço. E é muito melhor do que Juventude sem Juventude. Coppola contou que Thierry Frémaux queria exibir o filme no encerramento do festival. Ele não concordou. Se não era para concorrer, achava que seria falso vestir black-tie para apresentar um filme tão pequeno (e pessoal). Foi quando veio o convite da Quinzena. Coppola avançou pela sala, aplaudido de pé, em mangas de camisa, para apresentar o ?seu? filme. "Drácula era de Bram Stocker, ... de John Grisham. Sabia que teria de escrever uma história e o roteiro para que o filme fosse meu, como Tetro."Às vezes, um filme não precisa estar na competição, com direito a prêmio, para fazer barulho em Cannes. Tetro é a prova. A competição, propriamente dita, decolou sem muito brilho com Nuits d?Ivresse Printanière, de Lou Ye. Ao mostrar seu filme anterior, Summer Palace, aqui em Cannes, o diretor comprou uma briga com as autoridades de Pequim, que não deglutiram sua visão dos protestos da Praça Tiennamen, em 1989. Lou Ye teve seu registro de cineasta caçado por cinco anos. Mais do que pela ideologia, ele denuncia a brutalidade do regime que priva um homem, um artista, do direito à sua profissão. A China entrou rachando no capitalismo, mas sua censura continua totalitária, até mais, do que sob o comunismo.Nuits d?Ivresse, literalmente Noites de Embriaguês Primaveril, foi rodado clandestinamente, com uma imagem - em digital - que parece ?suja?, ?desleixada?. Essa urgência serve ao projeto e Nuits d?Ivresse talvez tivesse de ser filmado assim, mesmo com apoio, porque o universo que o cinema retrata é marginal, na repressora sociedade chinesa. Dois homens viajam de carro na cena de abertura. Param para urinar. Em 2001, há apenas oito anos, o homossexualismo ainda era considerado doença mental na China. Lou Ye encara o assunto, e no quatro de uma história que envolve relações homo e heterossexuais urinam um no outro como brincadeira. Na sequência, eles estão na cama, numa cena hard core de sexo, nos limites do explícito. Um deles é casado com uma mulher que suspeita da (in)fidelidade do marido e contrata um sujeito para segui-lo. A relação é com outro homem, não uma mulher, e o próprio ?detetive? se envolve com o amante. A rigor, parecem ter sido os motivos extra filme que colocaram Nuits d''Ivresse na competição. Só para encerrar o assunto. Victim, Meu Passado Me Condena, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde, que abriu ontem à noite a mostra Cannes Classics, em versão restaurada, é muito mais forte - e foi realizado no começo dos anos 60. Cannes, de qualquer maneira, abre sua janela para discutir o direito à diferença. Se isso devolver a Lou Ye o direito de filmar na China, já terá valido a pena. Na Croisette John Lasseter, da Pixar, comemora duplamente seu sucesso. Não apenas Up - Altas Aventuras, que a empresa produz (com a Disney) abriu o Festival de Cannes como em setembro, em Veneza, ele vai receber um Leão de Ouro especial pela carreira. Num encontro com um grupo de jornalistas, Lasseter revelou-se ontem ?excitado? e honrado. "Meu Deus! Vocês já viram a lista dos que ganharam o prêmio? Só gênios. Uau! Não considero esse um prêmio para mim, mas para a Pixar, que faz um cinema coletivo. É mais ou menos como um daqueles ateliês que os grandes pintores italianos do Renascimento possuíam."A brasileira Vera Egito está fazendo história no festival e, como tal, tem direito a matéria de página inteira numa das publicações diárias do evento, o NidiMagazine. É a primeira vez, nos 48 anos da Semana da Crítica, que uma diretora (ou diretor) abre e fecha essa seção de Cannes com seus filmes. Vera está abrindo a Semana com Elo e encerrando com Espalhadas pelo Ar. E ela ainda pode se considerar parte da equipe de À Deriva, que seu namorado, Heitor Dhalia, mostra em Um Certain Regard, na seleção oficial. A revista define Vera como ?inteligente e expressiva?.Cannes celebra o cinema de arte, mas também abriga um mercado de filmes movido a dinheiro. Uma imagem vista com frequência aqui - Sylvester Stallone e Jason Stratharn num intervalo das filmagens de Os Mercenários (The Expendables), que o primeiro está acabando (ou já acabou) de dirigir no Brasil. Imagens do novo Jean-Claude Van Damme também ornamentam a Croisette. Nem só de Palma de Ouro vive Cannes.

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